O Brasil e a modernidade
Formular para o Brasil um novo projeto pressupõe
interpretar as profundas transformações ocasionadas pela
revolução tecnológica. Esta é uma etapa
complexa, pela multiplicidade de frentes dentro das quais o Brasil
deve estar competindo. A principal delas, porque é geradora das
transformações que estão afetando o mundo,
é a nova revolução industrial. Estar presente
nela, de forma soberana, significa absorver avanços
tecnológicos e desenvolver um projeto ousado de pesquisas
avançadas e de reformas econômicas.
Concluída a etapa de substituição de
importações, o país precisa consolidar,
reformando, modernizando e ao mesmo tempo expandindo todo o seu
arcabouço industrial, agrário e de serviços. Essa
expansão necessita, para realizar-se plenamente, ocupar melhor
os espaços internos do país, com um mercado mais
qualificado, o que exige a redução das desigualdades
regionais e sociais. Ao mesmo tempo, é preciso conquistar
espaços nos mercados internacionais, ou seja, promover a
expansão da economia brasileira em direção e a
outros países, como parte da integração da
economia na realidade mundial, cuja nova configuração
geopolítica está sendo desenhada. Neste sentido,
não se podem aceitar concepções simplificadoras
de uma nova ordem internacional que pelo fim da guerra fria
pretendem dividir o mundo em Norte e Sul, numa visão de
confronto, como se o hemisfério Sul devesse ser contido, para
permanecer como território dos excluídos; tanto quanto
ao sul do Equador, a gravidade dos problemas sociais e o atraso
cultural estão presentes no hemisfério setentrional e,
mesmo, no coração dos países desenvolvidos.
Há uma nova realidade mesclada de
competição e cooperação, onde as
transformações são muito rápidas, geradas
por economias que se integram em âmbito regional e mundial, para
melhor competirem. O Brasil é muito grande e exercerá
grande influência na América do Sul. Por esta
razão, sua economia e seu mercado serão alvo permanente
dos interesses estratégicos do capitalismo internacional.
Assim, o país vai modernizar-se. O fundamental
é discutir se esta modernidade terá ou não
controle social; se será abrangente ou excludente. Eis a
questão. E nesta questão pesam negativamente o atraso e
a indigência de enorme parcela da população. O
Brasil pode transformar-se em grande potência econômica.
É bom que estabeleçamos este propósito,
perfeitamente viável para as próximas décadas.
Uma política progressista deve ter em seu projeto o objetivo de
transformar o país num dos centros avançados do novo
desenvolvimento mundial. Portanto, há uma
revolução a ser feita no Brasil, cujos caminhos
só podem ser os da democracia com ampla
participação social, ou seja, uma democracia
forte.
Esta política significa, concretamente, a
organização de uma nova sociedade, na qual amplos
setores sociais possam atuar conjuntamente para realizar
mudanças estruturais e implementar uma nova economia, que
garanta o nível digno de vida para todos os cidadãos.
Mas a distribuição social da riqueza, no capitalismo,
envolve luta política. Implicará a revisão da
taxa de remuneração do capital que, no Brasil, tem sido
elevada e espoliativa. Implicará o estabelecimento de uma
equação justa entre a remuneração do
capital, a remuneração do trabalho, a taxa de
investimento produtivo e a taxa de investimento social, o que,
levando-se em conta a realidade brasileira, só terá
pleno êxito numa economia de grande produtividade.
O Brasil necessita, simultaneamente, de investimentos pesados
para a reforma econômica e para a reforma social, devendo
manter, portanto, uma taxa elevada de crescimento econômico
durante anos seguidos para dar o grande salto do desenvolvimento,
visando a modernidade do século XXI, num quadro de intensa
competição internacional que afetará,
também, o mercado interno. Por aí podemos dimensionar a
crise e o seu desafio e os caminhos alternativos que deveremos
perseguir. Contudo, as bases deste novo desenvolvimento deverão
ser lançadas agora. Isto significa que, nos próximos
anos, o controle social da revolução tecnológica
estará no centro da luta política.
Por todas estas razões, uma nova política
progressista para o Brasil implicará formulações
que vão muito além de um simples projeto alternativo ao
do chamado neoliberalismo, que procura administrar as novas estruturas
de produção e de poder com um Estado mínimo
débil e assistencialista , Estado cuja
composição tenha um grau reduzido de representatividade,
embora convivendo formalmente com as liberdades políticas.
É uma nova política que implicará a
definição dos elementos estruturais e organizativos de
uma nova sociedade.
Antonio Rezk
Coordenador Geral