A sociedade humanista
e a crise da
civilização contemporânea

Antonio Rezk

Sabe, filho – dizia-me Mestre Peixoto – para a grande maioria do povo, jungido à faina da sobrevivência, a contemporanei- dade é o agora. No entanto, alguns são contemporâneos do passado. Recusam-se a trilhar caminhos novos. Morrem como estacas do Tempo. Mais felizes são os contemporâ- neos do futuro. Estes alimentam a Esperança. Só os sábios são contemporâneos do Universo. Trilham a História e plasmam a sua continuidade. (De um romance inédito)

(Com a derrocada da União Soviética – e do que ela representava como experiência socialista – é natural que o mundo capitalista e os teóricos da democracia liberal cantem vitória com a liderança científica e econômica que estabelecem sobre o planeta e a hegemonia ideológica que buscam impor aos povos, com a afirmação de que "a democracia liberal pode constituir o ponto final da evolução ideológica da humanidade e a forma final de governo humano, constituindo o fim da história.)

Contudo, o que eu sugeria não era o fim da ocorrência dos eventos, nem dos fatos grandes e importantes, mas da História, ou seja, da história como processo único coerente e evolutivo, considerando a experiência de todos os povos em todos os tempos. Essa compreensão da história está mais intimamente associada ao pensamento do grande filósofo alemão G. W. F. Hegel. Karl Marx transformou-a em uma parte da nossa atmosfera intelectual diária; tomando emprestado a Hegel o conceito de história que está implícito no uso que fazemos de palavras como "primitivo" ou "avançado", "tradicional" ou "moderno", quando nos referimos aos vários tipos de sociedade humana. Para esses dois pensadores havia um desenvolvimento coerente das sociedades humanas, desde as mais simples, tribais, baseadas na escravidão e na agricultura de subsistência, passando por várias teorias, monarquias e aristocracias feudais, até a moderna democracia liberal e o capitalismo conduzido pela tecnologia. Esse processo evolutivo não era casual nem ininteligível, embora não fosse linear e fosse até mesmo possível questionar se o "progresso" histórico contribuía ou não para a felicidade e o bem-estar do homem.

Tanto para Hegel quanto para Marx a evolução das sociedades humanas não era ilimitada, mas terminaria quando a humanidade alcançasse uma forma de sociedade que pudesse satisfazer suas aspiraçöes mais profundas e fundamentais. Desse modo, os dois pensadores previram um "fim da história". Para Hegel, seria o Estado liberal, enquanto que para Marx seria a sociedade comunista [...]

2.

Se a análise do presente só pode ser balizada pela bipolaridade que se impôs, sobretudo a partir da Revolução Francesa, entre a democracia liberal e a democracia social, nada mais natural que se comece reconhecendo – como o faz Perry Anderson – que "a tradição da Terceira Internacional terminou em ruína, ao passo que a sua rival no Ocidente sobreviveu", ao mesmo tempo que "os herdeiros da Segunda Internacional tornaram-se cada vez mais estéreis".

No mesmo sentido, Robin Blackburn inicia o seu artigo "O socialismo após o colapso", afirmando:

Ao iniciar-se a última década do século XX, o comunismo "marxista-leninista" sofre um desmoronamento tão amplo que elimina a possibilidade de esse sistema constituir uma alternativa para o capitalismo, e chega a comprometer a própria idéia de socialismo. A derrocada do stalinismo arrastou consigo a reforma do comunismo e em nada beneficiou o trotskismo, a social-democracia ou qualquer outra corrente socialista. As múmias de Lênin e de Mao permanecem em mausoléus, em Moscou e Pequim, como símbolos de uma antiga ordem à espera de funerais condignos. Mas o comunismo de hoje não é um espectro que ronda o mundo, e sim um pobre espírito que implora para ser deixado em paz.

Por outro lado, Eric Hobsbawn, em seu artigo "Adeus a tudo aquilo", inicia com uma indagação e com um alerta sobre o perigo dos diagnósticos instantâneos sobre o colapso da União Soviética:

Qual o significado histórico de 1989, o ano em que ocorreu o colapso do comunismo no Leste Europeu, repentina e presumivelmente de forma irrevogável, antecipando o colapso do regime existente na União Soviética e a ruptura de sua estrutura multinacional? É jogo perigoso dar um diagnóstico instantâneo, quase tão perigoso quanto a profecia instantânea. As únicas pessoas que nele mergulham sem hesitar são aquelas que esperam que seus diagnósticos e suas profecias sejam instantaneamente esquecidos (como jornalistas e comentaristas) ou que não sejam lembrados após uma ou duas eleiçöes (como os políticos) [...]

No entanto, a história não faz pausa à espera de que a interpretação correta dos seus fenômenos permita que ela prossiga. Na era do supersônico e da informação instantânea, quando fatos atropelam fatos, gerando seqüências novas na continuidade da história humana, a interpretação do que está ocorrendo – apesar do risco evidente dos equívocos – é fundamental para a organização do embate político que possibilite suplantar a barbárie, superar o caos da transição e cooperar para o prosseguimento da civilização em bases mais dignas e mais cultas para toda a humanidade.

Assim como a velocidade com que avança o conhecimento científico e a sua conseqüente revolução tecnológica tornam obsoleto o equipamento de ontem, também, com a mesma rapidez, estão caducando pensamentos e concepçöes ontem formulados. Mal passados três anos e a perestroika de Gorbatchev -- que afirmava ser "a perestroika uma necessidade urgente que surgiu da profundidade dos processos de desenvolvimento em nossa sociedade socialista", a qual "encontra-se pronta para ser mudada [...]" –, nada mais significa, nem como reforma do socialismo, nem como democratização do poder soviético, pois ambos não mais existem. A União Soviética tornou-se página da história que, aparentemente, retoma uma marcha que havia entrado por um desvio em 1917. E Gorbatchev, transformado que foi em curiosidade histórica que o Ocidente festeja, seria talvez mais uma vítima do que um agente de um processo gestado de uma crise de transformação que permeou continuamente o século XX.

Quem não for capaz de formulaçöes que possam se colocar um passo à frente do tempo presente, corre sério risco de ver suas idéias atropeladas pelos fatos que lhe retiram qualquer atualidade; da mesma forma aquele que trabalha com paradigmas de ontem, como se hoje ainda tivessem valor, estará concebendo para um tempo que acabou.

Por esta razão, o parágrafo entre parênteses que inicia este capítulo poderia ter algum sentido há um ou dois anos passados, servindo como prólogo para contestaçöes ideológicas de diversas origens, sobretudo da esquerda orfã.

O livro de Fukuyama nem bem chegou às livrarias e já não representa nada mais além do que uma tentativa de ressurgimento do pensamento hegeliano; mais do que uma proposta de renovação do liberalismo, não vai além de uma especulação filosófica, pois no próprio país de onde se origina o livro, a vitória do Partido Democrata não aponta bem na direção do liberalismo, mas muito mais para a retomada de Keynes, com uma forte intervenção do Estado na economia interna, que será necessariamente agregada a uma política protecionista, como tentativa de superação da crise aguda que solapa a sociedade norte-americana. Schlesinger, o historiador e uma espécie de ideólogo do Partido Democrata dos Estados Unidos, em entrevista aos jornais sobre o governo Clinton, afirma em determinado tópico:

Clinton sabe que para lidar com isso [demanda reprimida por investimentos sociais] será necessário reestimular o crescimento econômico para aumentar a arrecadação de impostos e permitir o atendimento das realizaçöes que só cabem ao governo. Temos hoje nos EUA muitos problemas que não podem ser e não serão resolvidos pelo mercado. O mercado não reconstruirá a nossa infra-estrutura de represas, canais, estradas e pontes, que se deteriorou nos últimos 20 anos. O mercado não melhorará nossas escolas, não ampliará os serviços de saúde, não protegerá o meio ambiente. Certamente, o mercado não resgatará as nossas cidades nem combaterá o crime e o tráfico de drogas. Esses problemas requerem a ação do Estado.

É uma negação concreta da afirmação de Fukuyama na sua sublimação do liberalismo, subestimando as desigualdades existentes na sociedade americana:

Assim, a despeito do grande sucesso do projeto liberal nos últimos quatrocentos anos, no sentido de excluir as formas mais visíveis de megalothymia da vida política, nossa sociedade continuará a se preocupar com problemas de uniformização da dignidade. Nos Estados Unidos democráticos dos nossos dias um número enorme de pessoas dedica a vida à eliminação completa de todos os vestígios de desigualdade, cuidando para que nenhuma menina tenha de pagar mais para cortar o cabelo do que um menino, nenhum grupo de escoteiros esteja fechado a chefes homossexuais, nenhum prédio seja construído sem uma rampa de concreto para cadeiras de rodas na porta da frente. Esses sentimentos existem na sociedade americana por causa, e não a despeito, da insignificância das desigualdades ainda existentes.

3.

No entanto, as declaraçöes de Schlesinger, que desmentem o otimismo de Fukuyama, se ditas por um marxista, bastariam para que ele fosse tachado como bolchevique extemporâneo.

Sem dúvida, uma intervenção do Estado em tal proporção – que para o caso americano é imprescindível para o enfrentamento de uma realidade que não se limita a uma simples crise recessiva, mas é um acelerado processo de transformação da sociedade industrial – não facilita uma ampliação da liberdade conjugada com uma expansão da igualdade; pelo contrário, caminha para a contenção de ambas, a menos que o liberalismo hodierno se limite à igualdade no custo do corte de cabelo dos homens e das mulheres, à liberdade do aborto e aos direitos dos homossexuais e da circulação dos deficientes físicos, numa ignorância total das graves e reais desigualdades. Seriam insignificantes as desigualdades sociais na pax-americana? Toda a intervenção do Estado é sempre coercitiva e discriminatória, ainda que venha paramentada por um formalismo democrático. E a qualidade do Estado moderno, ou as suas características intrínsecas, ainda não foram – nem podem, subitamente, ser alteradas. Eis porque, quando a realidade de uma transição histórica começa a penetrar o fulcro de uma crise estrutural da sociedade humana, uma concepção liberal-hegeliana como "fim da história" não extrapola o campo da especulação filosófica, mesmo quando imagina esgotado o potencial de formulação teórica inovadora.

(Contudo, é preciso reconhecer desde já – para retomarmos esta questão mais à frente – que o processo de desenvolvimento das sociedades humanas é coerente, quando visto numa perspectiva histórica longa, cuja evolução não é casual e – sem ser linear – pode ser perfeitamente inteligível, desde que se busque conhecer as leis que regem esse desenvolvimento.)

4.

Falando no Fórum Econômico Mundial, realizado em Davos, na Suíça, o reitor da Escola Sloan de Administração, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, professor Lester Thurow, afirmava: "Estamos diante de algo mais substancial do que uma recessão mundial. Não se pode falar de uma Grande Depressão, como nos anos 30, mas de uma grande estagnação." Nesta mesma direção seguiu Fred Berhster, diretor do Instituto para a Economia Internacional, em Washington: "A verdade é que os males da economia são profundos e estruturais e requerem um ataque às questöes fundamentais. Não há consertos rápidos disponíveis." Raymond Barre, ex-premiê da França, resumiu negativamente as conclusöes do Fórum Econômico Mundial, declarando: "Nós não fizemos previsöes, porque a situação é muito complexa." E Thurow não titubeia no seu conselho para a política norte-americana:

Se não for possível aos EUA acertarem sua balança comercial em negociaçöes multilaterais, Clinton deve separar o país do resto do mundo. Alguns chamarão essa idéia de protecionismo, eu de isolacionismo e Clinton simplesmente de senso comum, se quiser se reeleger.

Clinton mal acabava de assumir o governo e já decidia impor sobretaxas compensatórias à importação de aço de dezenove países.

5.

Eis como vem carregada de contradiçöes essa transição que marca a última década do segundo milênio: enquanto o novo governo dos EUA se prepara para uma nova intervenção na economia norte-americana – ao mesmo tempo em que estabelece uma guerra comercial com os países da Europa ocidental e com o Japão –, a velha Rússia batalha por implantar a economia de mercado – a moderna designação da sociedade burguesa, expressão agora mágica, cujo fetiche perde o encanto quando a competitividade mundial e o desemprego forçam a adoção de políticas protecionistas nos países desenvolvidos, dentro dos quais a recessão começa a acentuar perigosamente os problemas sociais, antes camuflados por uma riqueza em expansão.

Cessada a bipolaridade entre impérios antagônicos – frutos do mesmo processo histórico da revolução industrial – começam a explodir as contradiçöes originadas do aprofundamento das desigualdades existentes no seio de um mesmo e único sistema mundial de dominação. As naçöes desenvolvidas do paradigma ocidental – são elas que monopolizam o desenvolvimento, controlando o avanço tecnológico e científico – não podem resolver os problemas de todos os povos, pois já não conseguem socorrer-se a si próprias; a crise estrutural solapa os seus fundamentos sociais.

O déficit público das naçöes que formam a OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) já é, em média, 3,8% do PIB; a dívida interna acumulada norte-americana já ultrapassa os 4 trilhöes de dólares. Como o quadro mundial não favorece uma expansão global da riqueza, qualquer plano que vise a uma retomada do crescimento da economia norte-americana só terá algum êxito (independentemente do aumento da competitividade, que hoje só é possível com mais tecnologia e menos emprego), com uma forte política protecionista, para reservar o mercado interno, acoplada a uma política agressiva para controlar o mercado continental. Num cenário mundial internacionalizado por múltiplos interesses, uma política protecionista dos EUA redundará em mais recessão para a Europa, para o Japão e para o Sudeste asiático; o que acabará por repercutir, como um bumerangue, novamente na economia norte-americana. É a lógica circular de uma economia internacionalizada. Não é sem razão que o plano de Clinton para a recuperação da economia norte-americana causa sérias apreensöes nos europeus e japoneses, quando vem conjugado a intençöes de estabelecer "regras comerciais mais justas no mercado internacional" e "salvaguardas apropriadas para os trabalhadores".

Numa reação ao plano do governo americano, o Comissário de Relaçöes Econômicas Exteriores, da Comunidade Européia, Leon Brittan, observava preocupado: "No curto prazo, será grande a tentação de adotar medidas protecionistas para a recuperação econômica. É preciso resistir a isso." Já o diretor da Fiat italiana, Renato Ruggiero, reage pragmaticamente: "Se os Estados Unidos promoverem políticas industriais que aumentem a sua competitividade pela proteção de determinadas indústrias, os europeus vão querer fazer a mesma coisa." Na mesma direção, orientava-se o ex-premiê do Japão, Kiichi Miyazawa, observando que o plano de Clinton "representa novas pressöes para o Japão abrir mais o seu mercado interno. Se os EUA tomarem esse rumo, nós teremos que tomar algumas medidas".

No entanto – a menos que realize uma revolução sem precedentes –, a nação norte-americana, seguindo pelos moldes de uma tradição econômica ainda não alterada, não tem outra alternativa senão proteger o seu mercado, ao mesmo tempo em que procura ampliar ou reconquistar o seu espaço exterior, questão hoje extremamente problemática.

No limiar do novo século, o crescimento econômico depende, como nunca, da abertura de novos mercados no exterior. Assim, vamos insistir em regras de comércio justas nos mercados internacionais.

Uma parte da nossa estratégia econômica nacional deve ser expandir o comércio em termos justos, incluindo a conclusão da nossa última rodada de negociaçöes comerciais mundiais. Um Acordo de Livre Comércio da América do Norte com apropriadas salvaguardas a trabalhadores e ao meio ambiente. Ao mesmo tempo, necessitamos fazer uma tentativa agressiva para criar empregos de alta tecnologia para o futuro; precisamos dar atenção especial às indústrias em dificuldade, como a indústria aeroespacial e as empresas aéreas, e dar assistência especial a trabalhadores deslocados, como aqueles da nossa indústria da defesa.

Esta nova política do governo americano só pode ser implementada com uma forte presença do Estado como alavancador do desenvolvimento e protetor dos interesses nacionais, em clara contradição com a tendência internacionalizadora do novo capitalismo mundial, que procura globalizar-se no controle do capital financeiro e na monopolização do desenvolvimento tecnológico. Na verdade, o plano de Clinton pöe em xeque essa visão globalizadora, pois não aponta para uma política mundial de integração. Ao contrário, o seu caminho é o da competição conflituosa; aliás, toda competição traz embutido um conflito. Na economia como na política qualquer competição envolve um jogo de forças de dominação. Mas é preciso reconhecer que a gravidade da crise econômica e social nos EUA é de tal monta que induz a uma política nacionalista e a um Estado intervencionista.

Se não agirmos agora, não reconheceremos esta nação daqui a dez anos. Daqui a dez anos, o déficit terá crescido para ... US$ 635 bilhöes anuais. A dívida nacional abrangerá quase 80% do nosso produto interno bruto. Pagando juros sobre essa dívida, teremos o mais custoso programa governamental de todos, e continuaremos a ser o maior devedor do mundo, dependendo de fundos estrangeiros para grande parte dos investimentos da nossa nação.

Se essa previsão não for revertida, será a falência do Estado e a decomposição social. Eis por que não será pela via liberal que o governo americano fará frente a uma crise cuja essência e profundidade não foram ainda devidamente apreendidas pelos seus analistas. Assim como o estabelecimento de "salvaguardas a trabalhadores" sempre implicará limites a um "Acordo de Livre Comércio", cuja necessidade competitiva não se coaduna com quaisquer salvaguardas, da mesma forma o comércio regulado ("insistir em regras de comércio justas nos mercados internacionais") não é livre comércio. E, neste caso, as regras acabam sempre sendo impostas pelo mais forte, enquanto ele puder ser forte ou até mesmo para poder continuar a ser forte. Não tem sido assim na história, ou, para dizer com melhor clareza, na pré-história da civilização? Exemplificando: não são as retaliaçöes brasileiras que atemorizam a economia norte-americana, mas as retaliaçöes norte-americanas que abalam a economia brasileira.

Claro que a economia norte-americana não é mais uma hegemonia absoluta; é tão-somente – embora ainda suficientemente grande – uma parceira num bloco de países desenvolvidos (OCDE), e parceira em grandes dificuldades. Por esta razão Clinton teria que se apressar em suavizar no discurso a tendência protecionista do seu plano para os EUA, e o fez criticando a política protecionista dos demais parceiros da OCDE. O grande dilema do livre comércio nas relaçöes internacionais (o que inviabiliza relaçöes justas) é a desigualdade competitiva, que é, no entanto, elemento intrínseco da competição. Logo, nas relaçöes internacionais, as economias nacionais competem recorrendo sempre a uma forte presença do Estado nacional – enquanto potência –, para que force as aberturas externas e proteja o espaço interno. Ou seja, no presente estágio de transformação social da humanidade, uma economia competitiva é aquela capaz de aliar uma alta produtividade, sustentada por uma tecnologia em acelerada evolução, com baixo custo social, a um Estado eficiente na gestão do processo competitivo; tal realidade gera por si só a grande contradição da presente transição mundial: o conflito entre os elementos dinâmicos da tendência internacionalizadora da economia e da cultura e os fatores ativos e específicos de cada nação, impulsionados pelo agravamento das questöes sociais até o limite da própria sobrevivência.

O entrelaçamento dos interesses econômicos e políticos entre as naçöes da Europa ocidental, do Japão e do Sudeste asiático com os EUA, que ao tempo da guerra fria impunha-se pelos interesses comuns de uma frente política para conter a expansão soviética, gera agora, no entanto, uma situação de delicado ligamento umbilical. A crise de transformação obriga a que cada um busque seus próprios caminhos para a defesa de interesses nacionais ainda presentes e não ultrapassados. A extrema contradição: de um lado, a tendência globalizante da economia mundial sob a liderança das naçöes mais desenvolvidas; do outro, os interesses sociais e nacionais dessas mesmas naçöes que não apontam para a convergência, mas para o confronto econômico direto. A forte tendência da política norte-americana em procurar seus próprios caminhos para resolver a sua crise econômica e social, abala aquelas relaçöes políticas e agrava a crise econômica daqueles países, ao contrário da expectativa de que a solução global virá pela via do desenvolvimento norte-americano. A economia dos EUA só poderá voltar a crescer e a expandir internacionalmente às custas da economia asiática e da economia européia. Por esta razão, a globalização econômica não é uma questão pacífica e acabada, pois não são economias que se integram, mas, ao contrário, que se confrontam impelidas pela crise social. Antes da globalização será preciso construir hegemonias econômicas regionalizadas.

A iniciativa norte-americana forçará a uma tomada de posição semelhante dos demais membros da OCDE. A competição evoluirá para um conflito explícito entre interesses nacionais e regionais. De qualquer forma, tanto o pensamento das lideranças norte-americanas quanto o das européias, é ainda um pensamento conservador, moldado pela sociedade gerada pela segunda revolução industrial; ou seja, pensamento que oscila entre o liberalismo e o estatismo. Porém, num mundo economicamente ocupado (mas não integrado por um sistema internacional equilibrado e justo), dominado por uma lógica de competitividade colocada como questão vital para a sobrevivência e desenvolvimento de qualquer nação, o liberalismo torna-se problemático para ser assumido como política nacional. A via protetora será buscada através de uma forte presença do Estado – como via decisória legal –, principalmente pelas naçöes desenvolvidas que precisam ampliar e garantir a sua hegemonia, enquanto o sistema mundial vigente como geoeconomia e geopolítica ainda for concebido pela cultura burguesa e pela expansão do capitalismo.

6.

Todavia, conseguirão superar a crise e salvar o sistema? O plano Clinton, de recuperação da economia norte-americana com forte intervenção do Estado, poderá repetir o exemplo de Roosevelt na década de 1930, reerguendo os EUA e sob sua influência salvar o paradigma ocidental?

Eis a questão. Na verdade, a preocupação do alerta de Hobsbawn já pode agora extrapolar da débâcle do Leste europeu para a universalidade da crise, para o que Robert Kurz chama de "o colapso da modernização". Se a queda do Muro de Berlim significou o início do fim da experiência socialista de inspiração marxista-leninista, qual então o significado das violentas agitaçöes que sacudiram os EUA nos últimos dias de abril de 1992, em Los Angeles e Atlanta, e que tentaram minimizar como um conflito de preconceito racial? Qual o significado da decadência norte-americana que, no entanto, ainda é a grande economia e o grande poder militar? Que significado terá a débâcle dos Estados Unidos? "É o fracasso de qualquer liderança política em aceitar um futuro que se arregla diante dos EUA e de todas as outras naçöes de alta tecnologia. Onde não há visão, proliferam clichês, morrem pessoas e ardem cidades", concluem Alvin e Heidi Toffler em artigo especial para a Folha de S. Paulo.

7.

Não faltaram críticas e repostas a Fukuyama, única expressão mais consistente daquilo que se pretendeu chamar de neoliberalismo. No entanto, Fukuyama – simplificando seu pensamento – em seu livro, numa visão linear de uma história sem rupturas, quase fatalista, procurou apenas dissertar sobre a democracia do possível diante da falência do socialismo do possível. Ambos os conceitos são agora categorias atropeladas pelos eventos, cuja direção aponta para a necessidade de uma revisão da história, liberada de sentimentalismos e de subjetividades ideológicas que tanto plasmaram o século XX. Democracia liberal e democracia social são as duplas faces de uma mesma personagem que ocupou o cenário político dos dois últimos séculos; intercalaram-se como produtos processuais da lenta evolução da sociedade humana no seu caminhar secular. Por essa razão, a fase presente do desenvolvimento humano só pode ser vista com maior clareza a partir de uma perspectiva macrotemporal, sem o que a conjuntura esmaga o entendimento, não permitindo a percepção do abalo estrutural da crise.

Não se pode negar que a súbita derrocada do império soviético, desabando sobre si mesmo, não constava de nenhum clássico da sociologia política, nem estava na previsão de nenhum analista de ambos os lados. Acreditou-se, num determinado momento, que a perestroika e a glasnost fossem um movimento natural da sociedade soviética rumo a um patamar superior de democracia socialista. Ledo engano. Desmoronou o império do Leste, como desmorona qualquer empresa falida, com os credores rateando entre si o acervo restante. Desmoronou, sem ter chegado ao socialismo.

A rapidez com que ocorreu o desmoronamento do sistema soviético abalou e alterou a ordem mundial, como se o resto do planeta não estivesse preparado para suportar o vácuo de poder deixado pelo fim da URSS. Na verdade, acabou pondo a nu a crise estrutural da sociedade contemporânea, que, antes, a potencialidade de eventual conflito entre sistemas tidos como antagônicos mascarava. Mais ainda, perturbou e confundiu a inteligência de quantos se postavam como cientistas da sociologia, da política e da economia; pois havia um mundo bipolarmente ordenado e uma dualidade racional cartesiana, maniqueísta; porém com conceitos definidos, onde cada qual encontrava o seu lugar e satisfazia a sua psique. As soluçöes estavam dadas e acabadas, e os paradigmas estabelecidos. Havia um império do mal e outro do bem, dependendo da perspectiva do observador. E, de repente, como se um cataclismo alterasse a natureza do universo e confundisse os seus imutáveis ditames, o que era já não é mais, e o vir-a-ser um enigma a desafiar e a desalentar os mais audazes decifradores. Leis tidas como científicas deixaram de existir no condicionamento da evolução das sociedades; a história passou a ser um rol de fatos ao sabor do acaso, sem nexo dialético nem devir racional; o relativismo se impondo ao determinismo; o homem individual sobre o homem social; a democracia do possível como produto liberal acabado e final, o caos como a "ordem" natural da insuperável natureza conflituosa das relaçöes humanas; e a barbárie como a antítese da civilização, cuja síntese é a negação do desenvolvimento humanista.

Nada mais natural que, no centro crítico de uma transição histórica uma velha questão ainda não resolvida volte ao pensamento político: o processo social será sempre perverso, dominado pelo egoísmo e sob o domínio permanente do Leviatã, único a resguardar o homem do homem, numa ordem sempre imposta, sem nunca salvar nem libertar? Ou a humanidade ainda transcenderá os limites da barbárie para o grande salto civilizatório?

8.

Sem dúvida, indagaçöes e incertezas, mescladas de ceticismo e pessimismo, dominam o cenário dos povos nesta última década do século XX. Há uma revolução em andamento, oriunda do conhecimento científico e, simultânea e conseqüentemente, uma crise do pensamento racional, o que obscurece a visão dialética do movimento social, pela dificuldade da apreensão imediata dos fatos emergentes, cujo desenrolar contradiz concepçöes arraigadas, tidas e havidas como determinantes para a história e sem as quais ela não poderia se realizar. Contudo, a história está se realizando... Afinal, ela é a história dos povos, de todos os povos, da própria humanidade, e não se subordina à dogmatização de suas leis.

O contraditório nas ciências humanas é que suas leis são de difícil percepção e ainda de mais difícil difusão unívoca como conhecimento organizado, pois realiza-se no campo da razão, onde a vontade subjetiva do indivíduo não apenas altera a compreensão quando não raro distorce a própria perspectiva dos elementos ativos da realidade concreta. Daí, o reacionarismo ideológico – distinto da postura reacionária corporativa de classe – que se aferra a "verdades" estabelecidas e julgadas imutáveis; assim, facilmente aquela conceituação que era tida como lei vira dogma; o desejo substitui o entendimento, e a racionalidade descamba para a emocionalidade. Claro que em tais condiçöes turva-se o entendimento dialético do drama humano como parte da ordem cósmica e retarda-se o reconhecimento e a qualificação das mudanças. No entanto, somente a partir de uma postura nova e isenta, capaz de apreender objetivamente os elementos ativos da transformação, para conceituá-los numa nova linguagem que se torne racionalmente comum ao entendimento de muitos, se poderá iniciar um sério e profícuo trabalho de pesquisa, de análise e de determinação dos fatores sociais, econômicos e culturais que estão transformando profunda e rapidamente a sociedade humana. Somente a partir daí um ação política conseqüente poderá atuar na disputa do poder para a construção de uma sociedade mais justa e mais livre; ou, em outras palavras, dirigir o processo para a supremacia definitiva da civilização.

Em que pese o desencanto de esperanças naufragadas – justamente quando a ciência atinge patamares nunca antes atingidos – não será o nihilismo a prevalecer como a dialética do caos numa visão conjuntural que nega ou se omite em ver o processo global da história. A civilização ainda é um fato recente sobre o planeta milhares de vezes milenar.

São de ordem bem objetiva as inquietudes de milhöes de seres sobre a terra que procuram entender as mudanças, apreender os novos conhecimentos, manusear as novas máquinas, adaptarem-se a elas e sobreviverem enquanto indivíduos e sociedades. Não se pode negar o processo revolucionário, impessoal e inorgânico, por isso caótico, no desmantelamento das estruturas e instituiçöes já anacrônicas. No entanto, se aos indivíduos e sociedades ainda lhes escapa o alcance da revolução como cultura de nova espécie – o que genericamente alguns intelectuais denominam como Pós – são eles, contudo, os seus agentes; falta-lhes ainda a organicidade teórica como pensamento-força capaz de deflagrar o estabelecimento das bases econômicas e políticas de um novo sistema social.

Será uma grande e ingênua simplificação, se nos propusermos a responder às inquietudes e aos novos desafios, limitados por concepçöes enraizadas por décadas de um conflito ideológico que acabou por situar-se mais no coração do que na razão, e que oblitera a visão sobre uma realidade em mutação constante, cujo movimento acelerado atropela o pensamento que não conseguir antecipar-se aos seus passos. Será mais inútil ainda diatribes ocas sobre o capitalismo e a sua lógica de poder, em tardio confronto posto num discurso desvinculado da dinâmica social e da sua relação com a produção econômica.

Sem dúvida, o confronto entre o campo soviético e o campo ocidental, sob a liderança norte-americana, na disputa pela influência mundial de cada oponente – sobretudo após a Segunda Guerra Mundial, quando a questão ideológica cobriu com mais evidência as "razöes de Estado" – tinha, de qualquer forma, que deixar saldos qualitativos no avanço das ciências e no terreno dos direitos sociais, que o "sonho" socialista estimulava. Entretanto, o avanço social e científico não se deu apenas em razão daquele confronto, mas também pela dinâmica própria do desenvolvimento das forças produtivas e das novas exigências culturais, universalizadas pelos meios de comunicação instantânea, para os quais não existem barreiras nacionais intransponíveis. Por outra parte, a competição nunca se deu entre dois sistemas fundamentalmente diferentes; eles o eram apenas no discurso ideológico usado como condicionante social para o controle político, e na forma da planificação econômica – burocrático-estatal, de um lado, monopolista-privada do outro.

(As economias socialistas são planificadas. A necessidade de matérias-primas e componentes é prevista e relacionada à produção pretendida de artigos acabados. A renda global está relacionada, embora imperfeitamente, ao que estará à venda [...] Todavia, também existe muito planejamento nos países não-socialistas – por parte das grandes empresas, a fim de garantir o fornecimento de aço e componentes para os automóveis que produzem; dos seus homens de marketing, para garantir que os consumidores queiram os novos modelos de carro quando estes surgirem no mercado; do governo, para proporcionar rodovias nas quais os carros possam rodar, para garantir a gasolina que os faz funcionar e também o poder aquisitivo para comprá-los. Embora os defensores fervorosos da livre iniciativa refutem tal idéia, todas as economias industrias modernas são amplamente planificadas. Precisam ser.)

A forma de produção era a mesma, manufatureira de inspiração fordiana e taylorista. A exploração da mais-valia corria por conta da burocracia stalinista no modelo soviético, e por conta da burguesia monopolista no modelo capitalista. Esta identidade fez com que o regime soviético, fragilizado pela crise, desabasse sem que milhöes de operários saíssem em sua defesa. Ou tentassem deter o seu colapso, após 70 anos de controle ideológico. Sequer se importaram com ele.

Se a classe dominante perdeu seu consenso, isto é, não é mais dirigente, mas apenas dominante, exercendo apenas a força coercitiva, isto significa exatamente que as grandes massas se separaram de suas ideologias tradicionais e não mais crêem no que costumavam crer anteriormente.

Essa proposição gramsciana dirigida às sociedades de classes do capitalismo, tem, no entanto, alcance universal. Serve também para explicar o fracasso da sociedade soviética.

Se nos determos na apreciação exclusiva do colapso soviético, observaremos que os burocratas do partido haviam perdido a sua condição dirigente, pois a massa trabalhadora não mais acreditava nas razöes ideológicas do sistema. Observaremos, também, que o colapso do poder fora precedido do colapso econômico. A indagação sobre as causas da débâcle econômica nos levará à conclusão de que a falência ideológica desestimulou as massas soviéticas, precipitou a estagnação e a conseqüente crise econômica. Na verdade, o regime não atendia mais às necessidades da população, nem seduzia ideologicamente. Isto ocorreu concretamente no caso soviético.

Se houve uma crise específica da União Soviética e do seu campo de influência – o que, de fato, existiu –, essa crise, no entanto, foi parte de um processo mais amplo. Sintomas idênticos – de estagnação econômica e de desagregação social – estão presentes no resto do mundo. Logo, são mais profundas as causas da crise. A questão ideológica é apenas um dos seus elementos, tornando pertinente a observação de Robert Kurz:

A questão é, portanto, se não foi na verdade deflagrada [...] com a crise particular do sistema perdedor, uma crise global que também ameaça o pretenso vencedor e indica a existência de fundamentos comuns dos sistemas que poderiam servir de base para uma metacrítica.

O ciclo do desenvolvimento capitalista ainda não se esgotou, mas está em acelerada transformação. A não superação do sistema, após décadas de um conflito teórico, que afinal não se concluiu na prática, acabou servindo para acentuar a sua hegemonia ideológica – até pela súbita ausência de algo substancial que se lhe oponha. Contudo – ainda que na relação ideologia-cultura possa parecer paradoxal –, não se pode negar que a crise também se distingue pela quebra dos valores culturais e morais que compuseram o universo da era moderna. Isto é, do complexo social e dos seus antagonismos, ativos ou latentes, cuja manifestação violenta nada tem a ver com uma revolução social em que classes antagônicas se enfrentam diretamente na disputa do poder para definirem uma nova ordem política. Afinal, poderá alguém indagar: quem, agora, está lutando contra quem e por quê? Seguramente, o proletariado da teoria clássica não parece estar nessa luta como classe organizada. Proletariado em que a sublimação intelectual da sua parcela avançada parece ter criado uma segmentação: aqueles cuja qualificação intelectual os torna parceiros do poder, e aqueles cuja inadequação os condena à exclusão do sistema.

9.

Desnecessário acentuar que o fim da União Soviética (com a China caminhando com desenvoltura para a economia capitalista, sob a égide de um partido comunista) tornou marginal a teoria "marxista-leninista" como instrumental revolucionário. Conseqüentemente, alteraram-se as perspectivas ideológicas de intervenção política no desenvolvimento social.

Para a concepção dialética da luta de classes como propulsora da história, surge uma intrigante questão: se não mais existe um proletariado revolucionário para suplantar a burguesia, cuja hegemonia ideológica ainda permanece como condicionante social e modelo de existência até para os povos do antigo campo socialista, que novos elementos podem agora se erguer como oponentes, trazendo consigo um novo cabedal de conhecimentos, "com uma nova moral, novas idéias para se opor à visão burguesa de existência?" Sem dúvida, esta é uma questão a ser devidamente analisada, com a determinação dos novos agentes sociais surgidos da revolução tecnológica.

A crise atual, por sua natureza orgânica, é um fenômeno de nova espécie. Não pode ser simplesmente enquadrada nos ciclos econômicos, nem presa aos conceitos de hegemonia ideológica. Sendo estrutural, ela penetra o âmago da civilização.

As sociedades, de um modo geral, face à rapidez das mudanças, vivem em constante estado de ruptura. As suas estruturas econômicas são abaladas e vários setores se esfacelam. As estruturas sociais não subsistem por serem decorrentes daquelas. Estarão em crise permanente, enquanto o processo de transformação não se concluir com os fundamentos de uma nova sociedade. Como este é um processo atual e global, que abala as estruturas gerais da humanidade [...] a crise torna-se comum a todos os povos [...]

A sociedade é parte da ordem cósmica e esta tem os seus ditames, dos quais as crises são processos e não revogação. Se a humanidade chega a um novo patamar de desenvolvimento, que não tem similar no passado, dado o elevado grau de conhecimento e de avanço tecnológico acumulados nas últimas décadas – que ultrapassa várias vezes o produzido e acumulado pelos séculos passados até o final da Segunda Guerra Mundial –, então a caracterização da crise contemporânea deve ser buscada na análise dos fatores que alteram radicalmente o sistema produtor de bens e de serviços, modificando mais profundamente ainda o sistema informativo – e, conseqüentemente, impondo alteraçöes nas relaçöes sociais e na organização do Estado.

A transição de um estágio social para outro é um caminho caótico, onde a força aglutinadora de uma ordem política se dilui em conseqüência da acelerada transformação da base produtiva e da expansão do conhecimento. O Estado perde a sua mística e as instituiçöes ideológicas perdem a sua capacidade condicionadora, abrindo caminho, não raro, para o surgimento de concepçöes retrógradas que durante certo tempo predominarão nas consciências e influenciarão, negativamente, a evolução política. É o resultado do descompasso entre a aceleração do desenvolvimento e a correspondente adequação social.

O condicionamento histórico-social produz uma formação cultural correspondente, que se torna uma condicionante intelectual. Frutos das ideologias do nosso tempo, somos naturalmente impelidos para uma análise "conservadora" – ainda que intencionalmente pretendamos ser avançados – dos eventos contemporâneos. Será preciso romper este condicionamento. A contemporaneidade só pode ser corretamente estudada a partir de uma perspectiva macrotemporal e global do desenvolvimento da civilização sobre um planeta finito. Pois a história é a grande testadora das idéias, e as que não lhe correspondem não compöem o seu acervo legal.

Com a mudança do sistema produtor e a crise estrutural que ela provoca, rompem-se as relaçöes de hegemonia e de subordinação que identificam o estágio que se finda. Sem dúvida, a superação da fase transitória torna necessária a organização de um novo Estado, e com ele "a necessidade concreta de uma nova ordem moral e intelectual, isto é, um novo tipo de sociedade, e daí a necessidade de conceitos mais universais", de instrumentos culturais organizativos de uma nova espécie.

As novas relaçöes econômicas e a sua interface social na composição do poder necessitam de formulaçöes teóricas e de açöes concretas que se complementem como fundamentos de uma nova ordem. Mas paradigmas novos não podem ser "inventados"; para a sua conceituação será necessária uma análise dialética das transformaçöes provocadas pelo novo sistema produtor de bens e de serviços e o seu alcance no desenvolvimento intelectual e na democratização do saber.

Os novos conhecimentos, criadores de uma nova economia e de uma nova cultura, trazem consigo a necessidade de elaboração de um novo sistema teórico que possa reordenar a vida social. Portanto, necessita, também, de uma nova simbologia que melhor interprete as forças de transformação que estão agindo na estrutura social. Correndo o risco dos desbravadores, agora é preciso pensar ousadamente na interpretação dos eventos que vão surgindo aceleradamente, na perquirição do futuro imediato e na revisão da história , para conceituar com melhor precisão os fenômenos sociais e as instituiçöes políticas.

Assim sendo, é preciso entender que a crise não é apenas uma ruptura da base material. É, também e conseqüentemente, uma ruptura das idéias que sustentaram ideologicamente uma forma social de existência. Esta ruptura ideológica não é resultado de uma abstração, mas a conseqüência da transformação orgânica do desenvolvimento da humanidade. Por isso, a crise tem o seu aspecto metafísico na involução cultural, na ausência de qualquer ética, na carência ideológica e na exacerbação do egoísmo, parecendo ser a face negativa do desenvolvimento. Contudo, ela é parte íntima da transformação. Por essa razão, ela é uma crise da civilização. Nela, a instintividade agressiva da barbárie emerge com virulência marginal.

Para penetrar o fulcro da crise, torna-se imperioso apreender os fatores de ruptura e de transformação que afetam a existência do indivíduo e da sociedade. Sobretudo entendê-la na sua amplitude sócio-econômica e na sua fenomenologia histórica do século XX, século ímpar em cujo desenrolar o desenvolvimento acelerado gerou crises processuais que foram rompendo seguidamente a ordem mundial, alterando sistemas de dominação e de hegemonias, provocando instabilidades nacionais periódicas e preparando, com o avanço da ciência e da técnica, os elementos ativos da crise estrutural no ocaso do milênio.

Se não entrarmos no âmago da crise, somos induzidos a crer na sua fácil superação, acreditando que isto ocorra pela simples constatação de estabilidades financeiras parciais e ocasionais, neste ou naquele país, não considerando o cortejo de pobreza e de exclusão social que o custo de tais "estabilidades" provocam. Pela sua globalidade, ela afeta todos os povos, embora possam surgir bolsöes de riqueza a quem a crise ajuda de uma maneira ou de outra, criando, mesmo, espaços privilegiados, que são aqueles que primeiro se beneficiam das transformaçöes.

10.

Numa conceituação geral, definimos a crise como um fenômeno próprio da descontinuidade de um processo ou de ruptura de um sistema (o complexo orgânico de uma sociedade). Ela permeia, nos mais diferentes aspectos, o desenvolvimento social – quer quanto ao esgotamento de uma ideologia, quer quanto à transformação do sistema econômico. Conforme a sua natureza ou a sua origem, a crise pode ser conjuntural ou estrutural.

Se a sociedade é um organismo complexo, complexas são as suas crises. Sem dúvida, as crises não possuem uma única e mesma característica. Todavia, podemos dizer que uma crise conjuntural é conseqüência do acirramento das contradiçöes na evolução do sistema, e não da ruptura da sua estrutura orgânica. Os seus efeitos, contudo, podem provocar uma alteração grupal – ou estamentária – na composição do poder e uma reforma na organização econômica.

Nas suas nuances, uma crise pode ser produto de uma evolução nas estruturas econômicas. Neste caso, ela tem aspectos conjunturais-estruturais. Não rompe o sistema, nem muda a essência do seu poder. Mas reforma-o. Aqui podemos situar as conseqüências das revoluçöes industriais, que alimentaram conflitos e estimularam o colonialismo, mas não alteraram a essência orgânica do poder.

Já a crise estrutural se distingue por representar uma ruptura do sistema. Embora a crise estrutural tenha elementos comuns a uma crise conjuntural (a crise estrutural sempre afeta a conjuntura), dela porém se distingue pela qualidade da ruptura; ou seja, não é a intensidade dos conflitos, nem o grau de violência que geram, que distinguem uma crise da outra, mas a natureza orgânica da ruptura. As alteraçöes radicais das estruturas de produção econômica e cultural desmantelam a ordem social, cujos conflitos não podem mais ser resolvidos pela prática política do velho Estado. A crise tem conteúdo revolucionário.

Porém, a ruptura orgânica do sistema pode ter alcance universal, extrapolando a alteração substantiva do poder neste ou naquele país, numa ou noutra região. Então, a natureza dessa crise indica o fim de um estágio de desenvolvimento da humanidade. O seu caráter revolucionário é difuso, processual e universal. Os seus sinais mais evidentes surgem nas naçöes – ou nas regiöes – que lideram e centralizam a supremacia do desenvolvimento, com repercussöes no agravamento das condiçöes sociais dos povos periféricos.

Quanto tempo vai durar esse fenômeno? A decadência do Império Romano e sua transição para o feudalismo durou séculos. Da mesma forma, a passagem do feudalismo para a era moderna, que ocorreu de modo desigual e difusamente. Todavia, o ritmo das transformaçöes contemporâneas não tem comparação com o passado. O estreitamento das relaçöes internacionais e a velocidade das comunicaçöes fazem com que os elementos de transformação atinjam diretamente a vida quotidiana de milhöes de pessoas em todo o planeta.

11.

Sem dúvida, os fatores da transformação já estão presentes, atuando sobre o organismo social – sobretudo nas naçöes mais desenvolvidas –, embora a sociedade não tenha ainda percebido o seu significado ontológico, nem tenha refletido organizadamente sobre os novos tempos.

Objetivamente, quais são os elementos exponenciais da crise contemporânea? Podemos, esquematicamente, resumi-los em:

1. O desemprego estrutural e a estagnação econômica;
2. O declínio da reprodução e da acumulação do capital;
3. A falência da experiência soviética e, concomitantemente, a do Estado do bem-estar social;
4. A decadência da hegemonia ideológica imperial e a emergência do cesarismo como fator de ordem mundial;
5. A expansão da miséria e a ideologia das ilusões como fator retrógrado de cultura;
6. A economia ilícita e o poder marginal.

Está claro que os elementos caracterizadores da crise são também agentes que interagem entre si, sendo mutuamente conseqüentes, como fenômenos da transformação do sistema produtivo. Integram-se entre si. Cada um deles pode ser analisado em função dos outros.

Comecemos apreciando o impacto da robótica e da informática sobre a economia e o trabalho.

Tomemos, para exemplo, uma empresa que, pelo sistema industrial manufatureiro, empregava 30 mil operários, com 48 horas semanais de trabalho, para uma produção de 10 mil unidades. A empresa robotiza-se. A robotização altera a sua organização industrial.

Vejamos as diferentes alternativas:

  1. REDUÇÃO DA MÃO-DE-OBRA
    5.000 operários x 48 h/s = 10.000 unidades
  2. REDUÇÃO DAS HORAS INDIVIDUAIS DE TRABALHO
    30.000 operários x 8 h/s = 10.000 unidades
  3. AUMENTO DA PRODUÇÃO
    30.000 operários x 48 h/s = 60.000 unidades

Conseqüências e viabilidades de cada uma das alternativas:

A) A alternativa "a" representará um aumento da taxa de lucro, supondo a manutenção do nível de consumo, e um aumento massivo da taxa de desemprego;

B) A alternativa "b" representará uma manutenção do custo social, isto é, da taxa de emprego, sem afetar a taxa de lucratividade;

C) A alternativa "c" mal pode ser considerada. Na robótica e na informática, o aumento da produção não tem relação com o aumento da mão-de-obra. Por outro lado, a produtividade tem relação direta com a capacidade do consumo. O consumo não tem expansão infinita. E a competitividade se dá nos seus limites.

Porém, a adoção de uma ou de outra alternativa não é resultado da vontade individual do empresário ou da vontade coletiva da nação, enquanto o sistema for capitalista e a competitividade comandar a economia internacional.

Analisemos as seguintes situaçöes concretas, que são da lógica do mercado:

I - A concorrência no mercado impöe a redução de custos e da taxa de lucro. Não sendo mais a mão-de-obra quantitativa fundamental para a produtividade, a conseqüência natural será a elevação da taxa de desemprego;

II - Supondo que o país tenha um movimento sindical consistente, cuja ação política consiga impor a manutenção do custo social (taxa elevada e estável de emprego), neste caso, a concorrência interna imporá um ligeiro aumento da produtividade com uma redução da taxa de lucro e da conseqüente acumulação;

III - Porém, a interdependência e a competitividade internacional vão impor às empresas nacionais uma redução de custos e da taxa de lucro. Neste caso, a taxa de desemprego será continuamente ascendente e... irreversível. Na mesma proporção em que avançará o sistema informático e robótico de produção.

Observemos, agora, o que ocorre nas relaçöes econômicas entre as naçöes. Comparemos duas naçöes "A" e "B", equiparadas em potencial humano e econômico: ambas têm 50 milhöes de trabalhadores, produzindo um PIB de 500 bilhöes de dólares.

1. A NAÇÃO "A" PRECIPITA A ROBOTIZAÇÃO
Serão 50 milhöes de trabalhadores da nação "A", produzindo 2 trilhöes de dólares de PIB anual, contra os 500 bilhöes da nação "B"; ou seja, 4 unidades da nação "A" contra 1 unidade da nação "B", produzidas em tempo igual. Ou, ainda, a redução para 1/4 do custo da mão-de-obra da nação "A".

2. AS DUAS NAÇÖES REALIZAM A REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA
Porém:
– a nação "A" tem um custo social igual a x;
– a nação "B" tem um custo social igual a x + y.

Em ambos os casos a nação "B" perde a competitividade internacional, com reflexos danosos para a sua economia e para a sua estabilidade social.

12.

Claro que o elemento preponderante da atual crise – por ser o principal fator de transformação da ordem econômica – é a revolução técnico-científica. Esta revolução, ao alterar drasticamente o sistema produtivo, exclui milhöes de indivíduos do sistema econômico, em todos os níveis; conseqüentemente, altera a qualidade e reduz a quantidade qualificada do mercado consumidor, afetando a reprodução e a acumulação do capital, com reflexos negativos sobre o excedente transferido ao Estado, cuja limitação transparece no crescimento do déficit público na grande maioria das naçöes industrializadas. Reduz-se a transferência de recursos para o Estado, ao mesmo tempo em que sobre ele crescem as demandas sociais.

Sem dúvida, será preciso analisar o papel da economia ilícita como novo fator de acumulação de capital. Apesar da sua marginalidade, mesmo assim ela acaba se integrando ao sistema financeiro. Logo, ela é computada no bolo geral do capital mundial.

A mais-valia é gerada na produção; todavia, ela se realiza, na sua plenitude, como reacumulação de capital, pela sua sublimação no valor simbólico do mercado consumidor. Desta forma, o sistema produtor é condicionado pelo sistema consumidor. O agente de ambos é o trabalhador, de vez que é ele quem responde pelo grande consumo. Ora, pela robótica, a massa trabalhadora é alijada da produção e, conseqüentemente, inabilitada para o mercado. (O robô substitui o homem na produção, mas não o substitui no consumo.) Há, portanto, uma relação direta entre o desemprego estrutural e a estagnação econômica.

Paulatinamente, o mercado qualificado vai sendo reduzido. Esta redução – ainda que possa ser momentânea e parcialmente compensada pela sofisticação desse mesmo mercado e dos produtos por ele consumidos, ainda assim o circuito do capital (investimento, mercado, reacumulação) será afetado, pois parcela significativa dele acabará se perdendo no consumo marginal da grande massa excluída do sistema produtor central, mas empurrada para o submundo da economia informal, cuja pobreza reduz a capacidade reprodutiva do capital.

Na verdade, existe agora – e vai se acentuar cada vez mais – uma dicotomia entre o novo sistema produtor de bens e serviços e a estrutura de organização social. Aquele não se lastreia sobre a força organizada de milhöes de trabalhadores como elemento fundamental da produção; contudo, a sociedade mantém relaçöes fundamentadas sobre o trabalho humano como fator principal da produtividade e referencial para a distribuição da renda via salários. (Produz, recebe; não produz, não recebe. Ou, a forma socialista clássica, para não citarmos a fórmula capitalista: a cada um conforme a sua produtividade.) As receitas públicas – necessárias para o serviço social do Estado – são também afetadas, pois se originam das transferências do universo ativo da economia, que tem por base o trabalhador manufatureiro. A origem dos recursos vem, portanto, dos trabalhadores ativos, cujo número vem sendo reduzido seguidamente pela revolução tecnológica.

A ampliação do desemprego estrutural inviabiliza o Estado como agente do bem-estar social e aprofunda cada vez mais a contradição entre a estrutura de produção e a superestrutura política, que não condiz mais com a terceira revolução industrial, abolidora da mão-de-obra como fator elementar da produtividade.

O sistema econômico lastreado sobre a energia robotizada na produção e informatizada na administração, alterou a função humana na economia; o papel do homem na produção é agora de complementação superior, como planificador, criador e gestor da "res" econômica. Esta tarefa não exige o empenho organizado e simultâneo de milhöes de indivíduos produzindo segundo a racionalidade taylorista ou fordiana. Logo, o regime de trabalho e o compromisso social com a produção devem ser radicalmente alterados; da mesma forma o sistema de distribuição da riqueza deve alterar-se, não podendo mais ser seu referencial a unidade homem/produção. Conseqüentemente, o acesso do cidadão aos bens da civilização não pode mais estar condicionado à sua capacidade produtiva individual.

Este discurso pode soar absurdo, porque somos formados na cultura do homem manufatureiro, cuja concepção do trabalho tem dois conceitos: um econômico, como valor mercadológico; outro religioso, como valor ético. Para a organização de uma nova sociedade, será preciso romper conceitualmente com essas duas categorias.

13.

A supremacia sobre a natureza e o florescimento da civilização resultaram de duas características essenciais do homem: a capacidade intelectual e a capacidade manual. Da articulação de ambas, desenvolveram-se a produção organizada da riqueza (bens e serviços) e o sistema social, estreitamente ligados, interagindo um sobre o outro. A civilização teve início quando a racionalidade econômica superou a fase instintiva da coleta e da caça. Portanto, o trabalho humano como fator de transformação e de produção foi a base sobre a qual a sociedade desenvolveu-se. Porém, esse trabalho jungido, elemento essencial para a produção maciça de riqueza, sem a qual a civilização não se ergueria, nunca foi dignificante – apesar da era moderna ter pretendido dar-lhe conteúdo moral. O processo de libertação desse trabalho opressivo é a parte maior da história da civilização, embora oculta nas suas entrelinhas. A escravidão não tinha ética; apenas valor econômico. O trabalho assalariado dos tempos modernos é aético; tem apenas valor mercadológico.

A abolição desse sistema opressivo foi sempre pensada ideologicamente. Porém, a sua concretização só se torna possível com o avanço da ciência e da técnica na criação das novas formas de produção, abolidoras daquele trabalho massivo. A robótica e a informática colocam a humanidade nesse limiar. Falta, agora, a decisão social.

Desde o início, o homem procurou suavizar a sua faina. Na evolução do processo ele foi utilizando complementos para a sua faculdade manual e energia para a sua força produtiva – primeiro a animal, posteriormente a hidráulica e a elétrica, entre outras. Assim, foi transferindo para a máquina cada vez parcelas maiores da sua habilidade manual. Agora, no predomínio da ciência, o homem transfere completamente para o robô a sua faculdade manufatureira, do mesmo modo que transfere ao computador as suas faculdades intelectuais: operativa, dedutiva e memorativa – exatamente as básicas para a produção. A humanidade, portanto, está ultrapassando o estágio econômico do homem como unidade/produção.

Ora, esta é a maior revolução vivida pela humanidade. Contudo, o homem detém o monopólio do fundamental: as suas faculdades especulativa e criativa, que são os principais elementos alavancadores do desenvolvimento e da civilização.

14.

Observemos agora os grandes estágios do desenvolvimento da humanidade, a partir das primeiras civilizaçöes; constituem três eras distintas, marcando a evolução social e a ocupação do planeta. Em cada um desses grandes estágios o trabalho humano tem um valor econômico e um conceito social, refletindo-se na organização do Estado. Os dois primeiros estágios constituem a nossa história, o terceiro está sendo gestado.

Administração capatazeada – A energia humana era o elemento fundamental da produção; A força era o elemento preponderante do poder constituídor do Estado.

Administração burocratizada – A energia humana é o elemento principal da produtividade na operação das máquinas e equipamentos industriais. O trabalho assalariado transforma-se em valor mercadológico. A riqueza (predomínio capitalista) passa a ser o elemento preponderante do poder.

Administração informatizada – A energia robotizada é o elemento primordial da produtividade. A presença humana se dá na criação, na planificação e na gestão da atividade econômica. O conhecimento (o saber conjugado ao capital ... ou conjugado ao social) passa a ser o elemento preponderante do poder.

15.

Estamos apenas no preâmbulo de um temário extenso e complexo, cujo esgotamento não se dará, evidentemente, neste trabalho introdutório e muito menos pelo pensamento de uma única pessoa. Contudo, pretendemos desenvolver o aprofundamento analítico do universo aqui ligeiramente abordado em trabalhos que se seguirão. Por enquanto, basta-nos a afirmação de que a humanidade sofre uma crise estrutural de transição para uma nova era de desenvolvimento. Esta crise demoliu a experiência soviética assim como vem demolindo o sonho da democracia americana tida como modo de vida "exemplar". Do mesmo modo como leva ao colapso do paradigma europeu do Walfare State da social-democracia. Robert Kurz define esta fase como o "colapso ético e religioso da sociedade de trabalho – e do seu respectivo sistema produtor de mercadorias; Alvin Toffler dirá que é o fim da era manufatureira das fábricas de chaminés. Ambos, entre outros – cada qual com a sua visão do processo –, procuram demonstrar que chega ao fim um estágio da sociedade humana. Nada impede que também opinemos, já que a verdade social e os seus modelos teóricos estão agora em sério questionamento.

Será preciso apreender os fatores de transformação que compöem o processo de evolução da sociedade, para que o estudo do presente possa compor os fundamentos dinâmicos da nova civilização, cujos elementos foram gestados no ventre maduro e convulso do século XX.

A construção de um novo pensamento humanista só será possível com o conhecimento correto dos elementos surgidos com a revolução científica e tecnológica – tanto os sociais quanto os econômicos – a partir do que, será então possível ordenar a ação.

Se os paradigmas de ontem morreram, por não conseguirem reformular-se para os novos tempos – ou por serem equivocados, não permitiam reformulaçöes –, então tudo está novamente em questão para ser descoberto e formulado. Porém, os estágios da história não passam pura e simplesmente. Deixam como herança a experiência vivida e o que de concreto foi construído, como o saber e a civilização. No entanto, durante a transição, as forças do caos prevalecem para liquidarem de vez com as estruturas caducas.

No Manifesto do partido comunista, de Marx e Engels, existe uma afirmação que tem sido continuamente lembrada nos últimos tempos. E não há como deixar de repeti-la. Embora ela se refira à energia transformadora do capitalismo – referencial preciso da modernidade –, todavia ela define com exatidão a atual transição histórica:

[...] Essa revolução contínua da produção, esse abalo constante de todo o sistema social, essa agitação permanente e essa falta de segurança distinguem a época burguesa de todas as precedentes. Dissolvem-se todas as relaçöes sociais antigas e cristalizadas, com seu cortejo de concepçöes e de idéias secularmente veneradas; as relaçöes que as substituem tornam-se antiquadas antes mesmo de terem um esqueleto que as sustente. Tudo o que é sólido e estável evapora-se, tudo o que era sagrado é profanado, e os homens são, finalmente, obrigados a encarar com serenidade suas condiçöes de existência e suas relaçöes recíprocas.

Texto publicado no livro "A Revolução Tecnológica e os Novos Paradigmas da Sociedade", IPSO 1994.

Antônio Rezk é Coordenador nacional do MHD - Movimento Humanismo e Democracia, Diretor do IPSO - Instituto de Projetos e Pesquisas Sociais e Tecnológicas, formado em Estudos Sociais, ex-vereador de São Paulo, ex-deputado estadual de SP.


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