Guerra contra o terror será permanenteLuiz A. Moniz BandeiraDesde os atentados de 11 de setembro, ações de Bush levam a um conflito que servirá a interesses petrolíferos e bélicos que todo o seu gabinete defende.Em 1939, pouco antes de invadir a Polônia, Adolf Hitler disse ao alto comando da Wehrmacht: “Darei uma razão propagandística para começar a guerra, não importa se é plausível ou não. Ao vencedor não se pergunta depois se disse ou não a verdade”. Hitler sabia que uma propaganda, para ser efetiva, necessita de feitos. E, para provar que a Polônia não aceitava suas propostas de paz, ordenou a Operação Himmler: alemães da SS e da Gestapo, uniformizados como soldados poloneses, atacaram uma estação de rádio em Gleiwitz, fronteira da Alemanha. Aí estava a “razão propagandística”. O projeto de Hitler era estender o domínio da Alemanha, impondo a todos os países o modelo político do III Reich, e construir o Grande Império Germânico, para durar ao menos um milênio. Em 17 de setembro de 2001, seis dias depois do atentado terrorista contra as torres gêmeas e o Pentágono (que a CIA e o FBI, apesar de ter informações, nada fizeram para impedir), o presidente George W. Bush firmou um documento, classificado como top secret, no qual traçou a campanha no Afeganistão como parte da guerra global contra o terrorismo e ordenou ao Pentágono que iniciasse o planejamento de opções militares para a invasão do Iraque. Depois, pediu ao Congresso poderes para fazer a guerra contra o terrorismo (que começou com o bombardeio e a ocupação do Afeganistão) e ordenou ao Pentágono a elaboração de planos para o uso de armas nucleares contra o que denominou de “Eixo do mal”. Em abril de 2002, Bush proclamou então o propósito de derrocar Saddam Hussein e mudar o regime político no Iraque. Em 1º de junho, ele anunciou em discurso aos cadetes de West Point a mudança na estratégia de segurança nacional dos EUA, substituindo a doutrina de containment and deterrence (contenção e dissuasão) pela de preemptive attacks, ou seja, de ataques preventivos, contra grupos terroristas ou países percebidos como ameaça. – A guerra contra o terrorismo não será vencida na defensiva – declarou George W. Bush, esclarecendo que o projeto era remodelar os países, com o estabelecimento de “sociedades livres e abertas em todos os continentes”. Para não deixar a menor dúvida, acrescentou: “Os requisitos de liberdade se aplicam plenamente à África e à América Latina e ao mundo islâmico inteiro”. Não foi sem fundamento que a ministra da Justiça do governo alemão, Herta Dauber-Gmelin, comparou os métodos do presidente George W. Bush (que, em setembro de 2002, intensificou os preparativos para atacar o Iraque) com os de Hitler, nos anos 30, antes de começar a II Guerra Mundial. O contexto, evidentemente, é outro; a retórica, diferente, mas a essência é a mesma. O atentado terrorista de 11 de setembro de 2001 serviu a George W. Bush como “razão propagandística” para declarar a guerra permanente contra o terrorismo e depois ocupar o Afeganistão. Tratou ainda de promover a demonização de Saddam Hussein, sem apresentar provas consistentes de que possua armas de destruição em massa, para justificar o ataque ao Iraque, intenção que tinha desde o início de seu governo, em 2001. Primeiro ato do dramaO ataque ao Iraque constitui o primeiro ato na implementação da estratégia de segurança nacional, segundo a doutrina de ataques preventivos, que o governo de Bush oficializou num documento de 33 páginas, “The National Security Strategy of the United States of America”, divulgado em setembro de 2002, como se fosse uma resposta ao atentado terrorista de 11 de setembro de 2001. Essa doutrina, porém, foi formulada no início dos anos 90 por um pequeno círculo de teóricos conservadores, entre os quais Paul Wolfowitz e I. Lewis “Scooter” Lybby, que há muito tempo pressionavam no sentido de ampliar a função das armas nucleares, de modo a assegurar a superioridade militar, política e estratégica dos EUA. Em 1992, Dick Cheney, como secretário de Defesa, emitiu um documento – elaborado em parte por Paul D. Wolfowitz, que era seu subsecretário – no qual definia que a primeira missão política e militar dos EUA pós-Guerra Fria consistia em impedir o surgimento de algum poder rival na Europa, na Ásia e na extinta URSS. Na época, o presidente George Bush (pai de George W. Bush) não aceitou a idéia. Porém, em 3 de junho de 1997, um grupo composto por Jeb Bush (irmão de George W. Bush), Dick Cheney, Francis Fukuyama (o teórico do fim da História, logo da derrocada da URSS), I. Lewis Libby, Paul Wolfowitz, Donald Rumsfeld e outros a ressuscitou, lançando o Projeto para o Novo Século Americano (Project for the New American Century), que propunha aumentar os gastos com defesa, fortalecer os vínculos democráticos e desafiar os “regimes hostis aos interesses e valores” americanos, promover a “liberdade política” em todo o mundo e assumir para os EUA o papel exclusivo na tarefa de “preservar e estender uma ordem internacional amigável para nossa segurança, nossa prosperidade e nossos princípios”. Esse é o objetivo de George W. Bush, cuja administração serve não somente aos interesses das empresas petrolíferas, voltadas sobre o Mar Cáspio e o Golfo Pérsico, mas também às indústrias bélicas, que necessitam experimentar os novos armamentos e tecnologias numa guerra real, gastar os estoques que possuem e receber novas remessas. VínculosQuase todos, senão todos seus colaboradores, inclusive ele mesmo, Dick Cheney, Colin Powel, Donald H. Rumsfeld, Paul Wolfowitz, Condolezza Rice, Robert Zoellick e Otto J. Reich, têm vínculos com essas grandes corporações, entre as quais CEO, Hulliburton, General Dynamics, Nun-Wolfowitz, Hugh Eletronics, Enron, Chevron e outras. O que esse grupo pretende, com a guerra ao Iraque, é redefinir o quadro estratégico do Oriente Médio – o que implica o controle das reservas de petróleo – e evitar que a OPEP, nas transações internacionais, abandone o padrão dólar e adote o padrão euro, mudança já efetuada por Saddam Hussein em novembro de 2000, quando o euro valia cerca de 80 centavos de dólar (o que lhe evitou uma perda, com a desvalorização de 15% da moeda americana frente à moeda comum da União Européia, em 2002). O Iraque se transformará em cobaia, com a instalação de um simulacro de democracia de fácil manipulação por meio do controle de seu processo eleitoral. George W. Bush imagina que este país, democratizado e aberto ao capitalismo, se tornará estável e próspero, um verdadeiro modelo para todo o mundo islâmico. Assim, depois da ocupação do Iraque, será a vez da Síria e, em seguida, do Irã, da Líbia, do Egito, inclusive a Arábia Saudita, países nos quais os EUA se dispõem a intervir e mudar seus regimes políticos, sob o pretexto de combater o terrorismo, de modo a consolidar seu predomínio na região e dar maior segurança a Israel. Paul Wolfowitz, um dos teóricos do Projeto para o Novo Século Americano, evidenciou tal propósito após o atentado de 11 de setembro, ao defender a tese de que não bastava capturar e prender os talibãs, mas também tinham que se retirar os métodos de apoio, “acabando com os Estados que patrocinam o terrorismo”. Apontou, então, o Iraque como primeiro alvo da campanha, com o argumento de que esta seria mais simples e rápida que no Afeganistão. A ironia é que os meios do poderio militar dos EUA cresceram enormemente, mas, por isso mesmo, se tornaram quase inúteis. As forças armadas americanas podem causar danos com os mísseis que possuem, mas não alcançar seus objetivos, salvo em países insignificantes, como Granada. Segundo o diplomata francês Charles-Maurice de Talleyrand-Perigord (1754-1838), “tudo pode se fazer com as baionetas, exceto basear-se só nelas”. Os EUA já não usam baionetas, mas tampouco podem se sustentar nos mísseis nem considerá-los fundamentos de um Estado moderno. Luiz Alberto Moniz Bandeira é cientista político e professor emérito de política exterior da Universidade de Brasília.
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