Da cidade de pedra à cidade virtualJúlio MorenoVocê que vive em São Paulo, tem um computador, um software de comunicação e um modem, talvez não saiba, mas vive também em Netrópolis. Da mesma forma que alguém, com idênticas condições, que viva em Dom Pedrito, na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai. Ou ainda em Nova York, em Hong-Kong... Netrópolis é uma cidade invisível que reúne em torno de si cerca de 30 milhões de pessoas. Ou seja, mesmo não existindo fisicamente, Netrópolis já é a maior metrópole do mundo: a rede (network em inglês) que une computadores de todo o globo. Netrópolis está avançando tanto, que torna-se impossível imaginá-la fora de qualquer cartografia mundial. A ONU, contudo, mal se apercebeu disso. Em 1996, ela promoverá, em Istambul, a Habitat II, Conferência das Nações Unidas sobre os Assentamentos Humanos, tendo como tema "O futuro das cidades". O envolvimento das cidades na Agenda Verde, a crescente insegurança das metrópoles, a migração intercontinental para os centros urbanos já lotados, são alguns itens que merecerão intensa discussão dos governos e entidades que participarão do evento. Um item esquecido, no entanto, é o da cidade invisível que, em 1976, quando realizou-se em Vancouver a Habitat I, mal existia. Discutir o futuro das cidades, sem se preocupar com o significado e o impacto dessa "comunidade virtual" - expressão do escritor norte-americano Howard Rheingold - para os chamados assentamentos humanos, é um erro. Seria o mesmo que, no passado, ter ignorado o impacto da invenção do automóvel, por exemplo. E aqui convém lembrar que, desde 1991, nos Estados Unidos, o capital investido em informática e telecomunicação supera aquele investido em equipamentos industriais tradicionais, o que para muitos significou o marco simbólico da passagem do País para a chamada "Sociedade da Informação". Não se pode alegar que o tema seja estranho aos urbanistas, pois o surgimento da metafórica cidade invisível já era prognosticado, décadas atrás, pelo norte-americano Lewis Munford, um dos mais influentes estudiosos da história e cultura das cidades. Muitas das funções originais da cidade, outrora monopólios naturais, a exigir a presença física de todos os participantes, foram hoje transpostos para formas suscetíveis de transporte rápido, desdobramento mecânico, transmissão eletrônica, distribuição mundial, lembrava ele. Netrópolis é um conceito novo, que não pode ser confundido com o conceito da aldeia global, disseminado pelo canadense Marshall McLuhan, para demonstrar como os meios de comunicação – em especial a televisão – tinham equalizado o tempo e o conhecimento dos habitantes da cidade e do campo. A televisão até hoje, pelo menos é broadcasting, isto é, unidirecional, enquanto o ciberespaço criado pelos computadores é interativo, pois permite não apenas receber, mas também transmitir conhecimentos. Ou seja, coloca pessoas se comunicando com pessoas de uma forma ampla jamais alcançada antes por outro meio, trocando mensagens e imagens à velocidade da luz. Da caverna à comunidadeA expressão cidade invisível não é gratuita. "Em virtude de sua concentração de energia física e cultural, a cidade acelerou o ritmo do intercurso humano e traduziu seus produtos em formas que podiam ser armazenadas e reproduzidas", escreveu Munford. "Antes da cidade, houve a pequena povoação, o santuário e a aldeia; antes da aldeia, o acampamento, o esconderijo, a caverna, o montão de pedras; e antes de tudo isso, houve certa predisposição para a vida social que o homem compartilha, evidentemente, com diversas outras espécies animais". Essa predisposição para a vida social, natureza histórica das cidades, foi também a natureza fundamental da expansão da simbólica Netrópolis. Estatísticas da Information Industry Association, sediada em Washington, revelam que a troca de mensagens é a principal razão das conexões entre as redes telemáticas, seguindo-se as transferências de documentos, as transações financeiras, os games e, em último lugar, a obtenção da informação unidirecional. Em 1998, as empresas norte-americanas – perdão pela insistência na referência, mas eles têm estatísticas confiáveis – já estarão gastando em transmissão de dados um valor acima do que gastarão em serviços de voz. "A rede elétrica, e não o recipiente da Cidade de Pedra, oferece a nova imagem da cidade invisível e dos muitos processos a que ela serve e incentiva. Não é só o modelo da própria cidade, mas cada instituição, organização e associação que compõe a cidade, que serão transformados por esse desenvolvimento", escreveu Lewis Munford em "A Cidade na História", no início dos anos 60, obra com a qual ele retomou o fio deixado pelo clássico "A Cultura das Cidades", escrito em 1938. E completava: "Nessa inovação racial, as grandes universidades, bibliotecas e museus, se fossem capazes de auto-regeneração, poderiam tomar a dianteira, assim como fizeram seus predecessores na criação da cidade antiga". Nesse ponto, o autor foi quase profético, uma vez que coube, de fato, à iniciativa de centros de pesquisas norte-americanos, em parceria com o Ministério da Defesa, às vésperas da década de 70, o início daquela que hoje é a mais completa tradução da Netrópolis: a Internet, a rede das redes que conecta cerca de milhões de computadores em todo o mundo, número que tem duplicado a cada ano, nessa década. Depois dela, milhares de outras redes já foram criadas, tais como CompuServe, Prodigy e America Online, ainda nos Estados Unidos, ou o sistema de videotexto francês Minitel. Muitas – como a eWorld, da Apple – chegam inclusive a utilizar a figura da cidade como metáfora em suas telas de menu. Há uma grande expectativa, agora, com a anunciada criação da network da Microsoft, que pode inclusive desbancar a Internet. De qualquer forma, nenhuma rede privada ainda alcançou o porte e extensão social da "mãe das redes", talvez porque ela manteve seu caráter de rede sem monopólio de ninguém. Sozinha, a Internet abrange hoje uns 30 milhões de usuários, em todo o mundo; as demais, englobam os restantes 10 milhões que completariam a Netrópolis. (Atenção: essa estatística não engloba os micros ligados em redes em empresas). Para os brasileiros, o acesso direto à Internet e às demais redes internacionais ainda é coisa recente e brincadeira cara, mas há esperanças de que essa situação mude logo. O indivíduo como centroComeçando por ser uma representação do cosmo, um meio de trazer o céu à Terra, a cidade tinha num deus o seu centro. Com sua expansão, o centro foi ocupado depois pelo soberano, em seguida, pelo guerreiro, depois, pelo mercador, e por último, o industrial. Na invisível cidade digital, o centro passa a ser o homem, o cidadão comum, na medida em que lhe basta conhecer a linguagem dos bits e dos bytes para navegar à vontade por um mundo em que pode tanto conversar on line com outro cidadão comum, um cientista Prêmio Nobel ou até o presidente de uma Nação. Longe de ser, porém, a sonhada utopia, onde tudo se iguala, Netrópolis tem mais semelhanças com as cidades concretas que conhecemos, com seus atrativos, – mas também seus contrastes marcantes. Há pouco tempo, nas páginas do Estadão, tivemos notícias disso. Primeiro, o Caderno de Informática reproduziu matéria do New York Times em que se dá notícia a um estudo sobre o elitismo dos construtores das redes avançadas da chamada information superhighway, privilegiando investimentos em regiões ricas e deixando de lado os bairros mais pobres e os grupos étnicos minoritários. "Os patrocinadores do estudo dizem que a pesquisa desperta preocupação em relação a um projeto eletrônico excludente, que poderá resultar em um tipo de discriminação que é proibido por lei em setores como o bancário e o de seguros", dizia trecho da reportagem, mencionando em seguida a necessidade de acesso universal às infovias. Tempos depois, no mesmo jornal, na seção Geral, outra notícia dava conta de que uma entidade canadense irá financiar os equipamentos necessários para permitir a interligação via computadores entre aldeias indígenas do Canadá, Equador, México, Peru, Colômbia, Guatemala e Brasil... "Pelo sistema, as aldeias integradas poderão passar boletins sobre suas dificuldades, além de denúncias sobre ameaças de violações dos direitos humanos. Pelo computador, poderão fechar projetos e pesquisas de incentivos com órgãos de outros países", informava a reportagem. Transporte de idéiasOs meios de transporte sempre foram, como ensina Lewis Munford, o componente dinâmico da cidade, sem o qual ela não poderia ter se expandido em tamanho, alcance e produtividade. Não foi por acaso que as primeiras cidades foram fundadas em vales de rios; depois disso, o burro, o cavalo, o camelo, o trem, o automóvel e o avião ampliaram os domínios dos transportes e deram à cidade comando sobre homens e recursos em áreas distantes. Na comunidade virtual, o principal a se transportar são idéias, tecnologia e conhecimento, o trio que Alvin Tofler classifica como os novos produtos das sociedades da terceira onda. Um século antes dele, outro escritor famoso em sua época, Nathaniel Hawthorne, inspirado pelo desenvolvimento do telégrafo, dizia que "o globo terrestre é um vasto cérebro". Sua leitura, há 30 anos, marcou a juventude de Albert Gore, hoje vice-presidente dos Estados Unidos e mentor intelectual das ações que o governo daquele país tem feito pela construção não apenas de uma infra-estrutura norte-americana da informação, mas também mundial. Com a expansão das infovias, a cidade perderia de vez o monopólio da criatividade, pois deixaria de ser o único receptáculo e fomentador de conhecimento. Coisa, aliás, que já tem seus primeiros ensaios segundo a revista The Economist. Em sua edição de 21 de maio de 1994, ela afirma que as networks estão se tornando um emulador dos cérebros de empreendedores e acadêmicos de todo o mundo, ao proporcionar um intercâmbio contínuo de conhecimento e colaborações antes possível apenas em centros científicos que florescem, em geral, ao redor de algumas universidades. O espírito que tais centros esperam capturar talvez esteja crescendo basicamente no interior de redes de computadores, diz a revista, "muito além do alcance de planejadores urbanos e burocratas". Um dos meios mais populares de se conseguir informações via Internet, um sistema multimídia chamado World Wide Web, foi desenvolvido no Laboratório de Aceleração de Partículas da Europa, o CERN, em parte como meio para os cientistas terem acesso aos dados experimentais sem precisar ir até a Suíça. Nenhum dos usuários do novo telescópio em construção em Apache Point, Novo México, precisará ir ao lugar: qualquer um deles poderá guiar o olho robótico pelos céus, sem precisar sair da mesa de trabalho. Pesquisadores que usam o Freja, um satélite sueco, podem controlar seus instrumentos de qualquer lugar, bastando um laptop, um modem e uma linha telefônica. Nem tudo, porém, pode acontecer on-line, alerta The Economist, não só porque certas pesquisas não podem ser feitas inteiramente de forma virtual, mas também porque as redes ainda não competem em termos de mercado de trabalho com as cidades científicas reais. A revista acredita mesmo é que a aplicação de redes (muitas vezes entendida como sinônimo de descentralização) vai acabar fortalecendo os centros científicos, com suas vantagens de mercados de trabalho, em detrimento de concentrações menores ou mais novas. Ou seja, as redes vão transformar os centros científicos tradicionais em concentrações de gente que usa E-mail, em vez de incentivar a telecomutação de eremitas. "De qualquer forma, mesmo que cresçam, as cidades científicas não vão ser mais cidades-estado do conhecimento. Elas serão meros distritos da Netrópolis global, em todos os lugares e em lugar nenhum". A união dos mais famosos museus da Europa, num projeto telemático subsidiado pela União Européia, vai permitir em breve a interligação eletrônica de imagens, videoclipes e dados de todas as obras de seus acervos. Sem sair de Paris, qualquer um poderá "navegar" pelo ciberespaço e visitar um museu em Madri ou Londres, para realizar pesquisas ou simplesmente dar um lustro a mais em sua formação cultural. Enquanto isso, em Cambridge, ao lado de Boston, o Media Laboratory do MIT (Massachussets Institute of Technology) sonha com o dia em que crianças e adultos poderão ter à sua disposição a chamada knowledge machine, equipamentos cujos primeiros ensaios são os programas multimídia em CD-Rom já existentes no mercado. Tais máquinas permitirão às pessoas explorar, sem barreiras, qualquer área de interesse intelectual, expandindo seus horizontes – sem, contudo, substituir os professores, na visão de seu idealizador, Seymour Papert. Casamento cibernéticoO contato humano, importante frisar, não é abolido por aqueles que pensam a Netrópolis e suas funções. Eles apenas se tornam mais complexos, na medida em que um encontro iniciado numa praça pública, por exemplo, pode ter continuidade via e-mail ou um on-line chat (o bate-papo eletrônico). Ou vice-versa, é claro... A tendência é esse tipo de coisa aumentar ainda mais, na medida em que avançar a chegada dos computadores às casas. Na França, o pioneiro sistema Minitel, criado no início da década de 80, hoje é reconhecido como um casamenteiro eficiente. A propósito, voltemos a Munford: "A recuperação das atividades e valores essenciais que se incorporaram pela primeira vez nas cidades antigas, e sobretudo em todas as cidades da Grécia, é, por conseguinte, uma condição primeira para o maior desenvolvimento da cidade, em nosso tempo. Nossos complicados rituais de mecanização não podem tomar o lugar do diálogo humano, do drama, do círculo vital de companheiros e associados, da sociedade de amigos. São essas coisas que sustentam o crescimento e a reprodução da cultura humana, e sem elas toda a complicada estrutura passa a ser sem significado – e até mesmo hostil, de maneira ativa, às finalidades da vida". A lição é válida também para a Netrópolis, na medida em que homens de negócios deverão recorrer, cada vez mais, a vídeo-conferências, para discutirem assuntos de seu interesse com parceiros distantes, economizando tempo, energia e dinheiro. Hoje, só a Internet já acumula uma troca de l bilhão de mensagens inter-empresas todo mês, em todo o mundo, segundo reportagem recente da Newsweek. Estudos patrocinados pelo Fórum da Comunidade Européia de Teletrabalho, revela, por sua vez, a Gazeta Mercantil, indicam que, se cinco por cento dos trabalhadores de Madri optassem por trabalhar em casa, seriam economizados por ano US$ 34 milhões em horas perdidas nos deslocamentos e mais US$ 4 milhões em custos energéticos, da mesma forma como se evitaria a emisssão de 800 toneladas de gases poluentes. Não se pode negar, por outro lado, que isso tenha impacto direto sobre o tecido urbano. Graças a tais avanços, lograr-se-á uma desconcentração da administração pública e privada, "com as vantagens de uma distribuição mais equitativa da população por todas as cidades, dentro de um processo lógico de hierarquização", prognosticava já em 1982 o ex-prefeito José Carlos de Figueiredo Ferraz, recentemente falecido. "A teleinformática, como versão mais abrangente da telecomunicação – completava ele –, fornecerá precioso instrumental para agilizar o desempenho das cidades, notadamente das atuais megalópoles. Propiciando o deslocamento das indústrias para locais mais distantes; permitindo a racionalização dos transportes urbanos; possibilitando a polarização dos centros de interesse; ensejando o atendimento da população, independentemente de grandes deslocamentos; ofertando serviços descentralizados; automatizando os controles da máquina urbana, à informática está reservado um relevante papel". A ONU, até agora, prefere restringir o estudo de tais mudanças apenas à influência que as redes exercerão sobre os transportes e as comunicações do futuro. Mas o impacto será geral, não apenas nesses setores. E muitos outros exemplos podem ser dados. As primeiras experiências sérias de tevê interativa, aguardadas para breve, nos Estados Unidos, possibilitarão em última análise que cada lar seja a extensão de cada loja. Sem sair de casa, o cidadão poderá comprar uma pizza, enviar flores para a namorada em outra cidade ou ainda encomendar um carro importado, com o simples manuseio de um controle remoto e os números de seu cartão de crédito. Acreditando que no futuro 15% das vendas a varejo se darão através da cidade invisível, 20 empresas norte-americanas – entre elas, a Apple, a Intel, a Hewlett-Packard e a Pacific Bell – estão investindo US$ 12 milhões na construção de uma rede de comércio remota chamada CommerceNet, que poderia ser definida como um megamagazine digital. Vídeo e jornal on demandA tevê interativa é o casamento das atratividades da tevê convencional, em especial seu poder de entretenimento doméstico, com as atratividades das networks dos computadores e telefones, em especial o poder do usuário de ter acesso remoto a qualquer banco de dados. Com a tão falada tevê dos 500 canais, nós teremos potencialmente centenas de opções de vídeo on demand, por exemplo. Ou seja, a gente poderá ter em mãos, no momento em que quiser, o filme que mais nos interesse assistir. Essa talvez seja uma das atratividades mais populares da futura tevê interativa, mas não se pode esquecer outras com impacto mais significativo em nossas vidas. No Canadá, a Hearst Corporation – um dos líderes da mídia na América do Norte – associou-se a um banco, uma companhia de saneamento, uma loteria, uma empresa de venda por mala direta, a empresa de correios e uma tevê a cabo, para criar a UBI (Universality Bidirectionality Interactivity), apresentada como the first home electronic highway. Programada para estrear em 1995, a UBI vai oferecer uma gama enorme de bens e serviços a todos os lares de Quebec e região. Com uma tevê interativa em casa, um controle remoto e um cartão de crédito especial, qualquer um vai poder pagar suas contas automaticamente, bem como encomendar qualquer produto, jogar na loteria, enviar ou receber correspondências, tomar aulas particulares, optar pelas notícias de coisas que, de fato, lhe interessam e, naturalmente, escolher o filme que deseja, no momento em que deseja. O poder de opção do usuário já existe em alguns serviços, inclusive no Brasil, como o fax on demand, tanto para receber extratos bancários como para receber notícias. Roger Fidler, pesquisador do grupo Knight-Ridder, dos Estados Unidos, trabalha atualmente no desenvolvimento de um jornal eletrônico que nos dê a opção de escolher o que desejamos ler com um simples apertar de botões. Mais espantoso ainda é que, tal como o jornal de papel e tinta, o jornal eletrônico concebido por Fidler será portátil. Ele aposta nisso, baseado no extraordinário desenvolvimento das tecnologias de transmissão de dados sem-fio (wirelless), nos últimos anos, criando extensões remotas de bancos de dados centralizados. Antes até da disseminação do vídeo ou do jornal on demand, os estudiosos prevêem a expansão imediata dos pagamentos bancários virtuais, bem como dos serviços de bolsas em tempo real. Talvez já comece a se formar uma nova classe de investidores para quem Wall Street é algo invisível e imaginário, não as cotações, movimentações, vibrações, ganhos e perdas de que participam através das telinhas de seus computadores... Enquanto isso, nas escolas, os computadores ainda engatinham as primeiras entradas em salas de aula, como ferramenta auxiliar do professor. Mas o que será daqui a 10, 20 anos, quando o PC se disseminar pelos lares (na forma casada ou não com a tevê, não importa) e se transformar na sala-de-aula virtual? Nossos filhos e netos terão, certamente, uma maior liberdade e universalidade em seus conhecimentos, sem saírem de casa. O que isso significará para a sociedade como um todo? E, em particular, o que isso significará para a cidade de pedra em que vivemos hoje? Nova era atenienseImportante acentuar que as variadas funções acumuladas na Netrópolis – a escola, a loja, o banco, a banca de jornal... – só terão êxito se nela, como em qualquer cidade decente, houver o respeito à individualidade das pessoas, à diversidade de culturas, enfim, à personalidade de cada grupo. A GII, sigla em inglês da Global Information Infrastructure – é assim que Al Gore chama a cidade invisível – , será uma montagem ou reunião de redes locais, nacionais e regionais, que não apenas servirão como computadores paralelos, mas também em seu estado mais avançado, serão, na realidade, computadores paralelos distribuídos. Num sentido, ela constituirá a metáfora da própria democracia. Aliás, a GII haverá de promover o funcionamento da democracia, ao incrementar grandemente a participação dos cidadãos na tomada de decisões. E, assim mesmo, promoverá intensamente a capacidade de as nações cooperarem umas com as outras. Antevejo uma nova Era Ateniense para a democracria forjada, nos foros que a GII irá criar". São palavras de um pronunciamento feito, em princípios de 1994, na abertura da Conferência Mundial para o Desenvolvimento das Telecomunicações, em Buenos Aires. A cidade virtual deve, pois, comportar-se como um vestíbulo – que, de fato, é – da cidade real. E vice-versa, na medida em que a Netrópolis crescer e se expandir. Resultado disso tudo é que, parece inexorável, a metrópole digital também terá suas formas de violência, seus momentos de solidão, suas neuroses, suas gangs, se é que já não as tem. Se a cidade é, como disse recentemente em São Paulo o arquiteto suíço Mário Botta, "a imagem física da História", a Netrópolis bem poderá ser "a imagem da alma da História". Nesse sentido, ela pode contribuir muito para a felicidade do homem, mas isso estará na dependência direta do grau de liberdade que existir na Netrópolis. Daí porque é necessário que ela seja, de fato, uma network sem monopólio de ninguém. Viver virtualmente em rede pode até significar interdependência, mas jamais dependência. Como se consegue isso? Não se pode esquecer, como lembra mais uma vez Lewis Munford, que tudo tem um limite para se desintegrar. Cidades como Nova York, São Paulo e Tóquio, possivelmente estão próximas de atingirem, com o desenvolvimento da Netrópolis, ao extremo completo de seu ciclo, tal como ocorreu com Roma no passado. E tal como a cidade de pedra, a cidade invisível nasce sabendo que um dia morrerá. Porque, o que importa, de fato, são as pessoas, sua linguagem, seus ritos e sua liberdade de viver – e não apenas seus remanecentes físicos ou virtuais. Este texto é uma versão atualizada, em maio de 1995, de artigo publicado originalmente pelo "Jornal da Tarde"(SP) em 16/07/94. Júlio Moreno (jmoreno@oesp.com.br) atuou como repórter de problemas urbanos, cobrindo a Habitat I para o Jornal da Tarde. É diretor do Grupo Estado.
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