A desqualificação dos trabalhadores causada pela automação das tarefas

Paulo Roberto Feldmann

Neste trabalho, procuraremos mostrar que a disseminação da informática e da automação, decorrente dos avanços tecnológicos alcançados nestas áreas e principalmente na microeletrônica, afeta não somente a quantidade de empregos existentes, mas sobretudo a natureza das atividades e, conseqüentemente, a qualificação necessária para ocupar os postos de trabalho.

Assim sendo, abordaremos aspectos referentes à organização do trabalho e ao processo de desqualificação que o mesmo vem sofrendo ao longo dos últimos anos. Um aspecto que diferencia bastante a microeletrônica de outras tecnologias é que ela tende a interferir no processo de organização do trabalho. Mas a incerteza com relação aos efeitos da automação sobre as novas formas de organização do trabalho é muito grande. Começam a surgir evidências de que mudanças muito importantes estão por acontecer. Já não é pequeno o número de casos em que boa parte dos trabalhadores está tendo sua função rebaixada por não mais ter que usar ou, pelo menos, fazer um menor uso de seus conhecimentos especializados. Por exemplo, para uma série muito grande de tarefas (em fábricas, bancos, lojas, etc.), nota-se uma separação cada vez maior entre a atividade de concepção e a de execução da mesma. Além disso, muitas tarefas e ocupaçöes estão desaparecendo pura e simplesmente, como, por exemplo, no caso de linotipistas ou telefonistas. Outras estão sendo substancialmente modificadas, como é o caso dos bancários, principalmente aqueles que atendem ao público.

Tudo leva a crer que, com a implementação de equipamentos à base da microeletrônica, o conteúdo do trabalho será modificado. Tanto na indústria, nos bancos, como no comércio, ou nos demais ramos do setor de serviços. Os novos equipamentos passam a exigir para sua operação o uso de uma nova força de trabalho. E isto não se dá somente nos casos de trabalhos com baixa qualificação. Tanto é assim que, através do uso da tecnologia CAD, até mesmo as tarefas dos engenheiros passam a sofrer profundas transformaçöes.

Desta forma, procuraremos, aqui, realçar algumas modificaçöes que a introdução de processos automatizados provocam nas ocupaçöes enfatizando-as ao nível da organização da produção.

Em primeiro lugar, há que se destacar o efeito mais freqüente e que está presente praticamente na totalidade dos casos, qual seja, o aumento de produtividade que as empresas conseguem, ao introduzirem os equipamentos automatizados. Isto ocorre porque, com as novas máquinas, o trabalho tende a ser mais intenso, passando a haver uma maior quantidade de operaçöes e tarefas sendo executadas por unidade de tempo. Conseqüentemente, o desgaste físico e psicológico do trabalhador também é menor. No entanto, segundo Braverman, apesar de serem mais intensas, as tarefas também passam a ser mais repetitivas, rotineiras, parciais e elementares, de forma a exigirem cada vez menos ingerência intelectual do trabalhador. Não custa enfatizar que os aumentos de produtividade conseguidos pelas empresas, com a automação, não se limitam ao fator mão-de-obra mas, muitas vezes, eles ocorrem devido a economias de insumo e de uso de materiais em geral. Além desses aspectos, a instalação de equipamentos automatizados, em razão de seus formatos, tamanhos e necessidades de operação, promovem mudanças importantes nas condiçöes de trabalho, como, por exemplo, na realocação espacial dos locais e ambientes. Isto porque, em geral, se consegue melhor aproveitamento do espaço por lotes de produto e menor número de pessoas trabalhando por metro quadrado. É freqüente que se consigam melhores condiçöes de ventilação, ruído e temperatura, sendo comum os equipamentos automatizados contribuírem para reduzir os níveis de insalubridade. Entretanto, não se pode deixar de realçar um fenômeno que surgiu recentemente, mas que já começa a causar preocupaçöes, que é o da insalubridade causada pelo computador. É aquele que ocorre devido à necessidade de concentração excessiva dos operadores sobre os vídeos dos terminais ou então o que leva aos problemas de articulação dos músculos das mãos (tenossinovite), que atinge um grande número de usuários.

Mas, ainda com relação ao trabalhador fabril, uma categoria importante de problemas que surgem, devido às novas formas de organização do trabalho é aquela dos problemas mentais e psicológicos. Um deles é o problema da depressão causada pela monotonia que passa a sofrer o trabalhador. Isto porque são retirados de seu trabalho os fatores imprevistos, além de que a cadência e o ritmo passam a ser determinados pelos próprios equipamentos. Adicionalmente, a programação detalhada das atividades produtivas passa a ser feita quase que exclusivamente fora do ambiente do trabalho, o que configura mais um fator de alienação do trabalhador em relação à sua atividade. Acrescente-se a estes aspectos o fato de que grande parte dos equipamentos exige dos trabalhadores um nível de atenção muito alto. Todos estes fatores somados, monotonia, alienação e alto nível de atenção, são responsáveis por gerar um clima desconfortável de trabalho, onde não é raro encontrar-se até casos de solidão.

Segundo Braverman, as novas funçöes e ocupaçöes, que surgem após a automação das atividades, exigem trabalhadores com habilidades inferiores às que eram exigidas antes do desenvolvimento tecnológico. A indústria editorial possui bons exemplos de como a mudança tecnológica leva à mudança do perfil de profissionalização. Desde o início do século que o operário padrão símbolo era o linotipista. Hoje, com os novos processos de impressão e composição, o linotipista está desaparecendo como profissão dominante na indústria gráfica. Em seu lugar, aparecem datilógrafas, cujo grau de qualificação é bastante inferior e cuja remuneração é bem menor.

Outro exemplo típico é o que oferece a tarefa de operação de máquinas ferramentas universais, que consistia em um trabalho manual bastante qualificado. Quando a ela foram acoplados dispositivos microeletrônicos, e essas máquinas se transformaram em máquinas ferramentas de controle numérico, houve uma mudança radical no processo de trabalho. Essas mudanças acabaram por acarretar que o controle e a capacidade de tomar decisöes se transferissem da fábrica para o escritório, e o operador do novo equipamento passou a ser um mero apertador de botöes. Para Ratner, uma das conseqüências da automação à base da microeletrônica é a desqualificação dos ferramenteiros e a transferência de uma parte substancial de suas funçöes para os programadores e operadores de computador. O uso de equipamento eletrônico tende justamente a organizar o processo de trabalho de acordo com a exigência do computador e da nova tecnologia, o que resulta em um maior controle sobre os trabalhadores. Ratner também pondera que a aceleração das cadências das linhas de montagem e do fluxo torna ainda mais alienado o operário e reduz os trabalhadores a meros acessórios intercambiáveis da máquina.

Segundo Stephen Marglin, o processo de desqualificação do trabalho não é recente, nem pode ser imputado somente ao advento da automação. Já no princípio deste século, a doutrina taylorista recomendava que o trabalho fosse quebrado em pequenos segmentos, pois, com isso, se conseguiria maior eficiência. No entanto, com essa segmentação, o trabalhador deixou de ter o conhecimento do todo. Como vimos anteriormente, a doutrina taylorista, nestes aspectos, deriva basicamente dos ensinamentos de Adam Smith.

A ideologia taylorista, visando aumentar a produtividade, dividiu cada uma das atividades desempenhadas pelo trabalhador em tarefas elementares e cadenciadas, de tal forma a controlar os mínimos movimentos do trabalhador e até mesmo o seu repouso. Os "princípios" de Taylor tiveram muito sucesso e culminaram com a criação da linha de montagem por Henry Ford.

Entre outras vantagens, a divisão do trabalho em tarefas elementares permite, além da eliminação do tempo ocioso entre um movimento e o outro, que se distribua as tarefas menos especializadas a trabalhadores com remuneração inferior.

Com relação a este aspecto, Stephen Marglin argumenta que, historicamente, a razão do sucesso da fábrica é que ela tirava dos operários, transferindo aos capitalistas, o controle do processo de produção. Segundo ele, não é por ser o único que consegue combinar os operários que o capitalista pode enriquecer às custas dos mesmos, mas, ao contrário, é por tê-los incapacitado de exercer a função que reservou para si.

Do ponto de vista dos trabalhadores, o taylorismo e o fordismo criaram um aparente paradoxo: enquanto, por um lado, trouxeram massas de produtos industriais para os trabalhadores e permitiram a liberação de tempo para atividades não diretamente produtivas, também foram responsáveis por tornar o trabalho mais monótono e restrito.

Importante é realçar que o taylorismo não é um fenômeno puramente fabril. Hoje, nos escritórios, o processamento de textos exige uma orgnização de trabalho à base de concentração do trabalho em pool de datilografia, ou seja, trata-se da exigência de especialização idêntica à ocorrida nos limites da fábrica.

Com relação à questão de que a degradação do trabalho teria se iniciado com o advento do taylorismo, Benjamin Coriat defende a idéia de que, por esta razão, as mudanças na organização do trabalho já se faziam necessárias antes mesmo do advento da microeletrônica. Argumenta Coriat que os níveis de insatisfação e absenteísmo dos trabalhadores estão se elevando de uma forma muito intensa mesmo em setores não atingidos pela automação, e mesmo antes do advento da mesma.

O processo de desqualificação do trabalho, aliás, já havia sido apontado por Marx, que afirmava que o desenvolvimento tecnológico é acompanhado de um aumento da divisão social do trabalho, sendo esta a fonte de todas as alienaçöes.

Segundo Marx, as inovaçöes técnicas permitem que o capital se aproprie das habilidades e conhecimentos do trabalhador manual, de tal forma que a ciência passa a servir quase que exclusivamente aos interesses do capitalista. Segundo suas previsöes, feitas ao final do século passado, com o avanço tecnológico e o advento de equipamentos automáticos, os operários passariam a ser meros acessórios em relação às novas máquinas. Sua importância estaria limitada a vigiar a máquina e as matérias-primas, bem como proteger a primeira da ocorrência de avarias.

Feyssinet confirma as previsöes de Marx e reitera que os novos equipamentos automatizados farão com que o trabalho da maioria se restrinja à tarefa de vigilância reflexa sobre as máquinas. Para ele, este tipo de vigilância e controle conduzirá a um aumento da tensão nervosa entre trabalhadores.

Com relação a esses aspectos, A. Gortz conclui que a automação possui dois objetivos:

1. Reduzir a quantidade de trabalho necessária, substituindo parte dos operários por máquinas.

2. Substituir a intervenção inteligente do trabalhador por comandos automatizados que impöem aos operários um padrão preciso de movimentos.

Mas, segundo Gortz, o processo de desqualificação da força de trabalho não se dá apenas por razão de economia, mas porque a qualificação é um poder que o operário exerce sobre o movimento de produção, constituindo assim uma ameaça para o patronato.

Claro que há situaçöes, embora escassas, em que ocorre o inverso do que mencionamos anteriormente, ou seja, um aumento do nível de qualificação do trabalho. Isso acontece com os profissionais que atuam no projeto e na concepção das máquinas e dos sistemas de produção, como, por exemplo, engenheiros eletrônicos e de produção, analistas de sistemas e programadores, que representam menos de 1% da população economicamente ativa. Todavia, deve-se chamar a atenção para o fato de que, às vezes, mesmo os trabalhos superqualificados, acabam sofrendo o processo de taylorização, como, por exemplo, ocorre com a tarefa de programadores de computador, já que hoje é cada vez mais comum a utilização de pacotes de programas específicos e pré-elaborados, que reduzem a necessidade de programadores.

Braverman considera que o fenômeno da desqualificação do trabalho não é simples fruto do avanço tecnológico, mas sim faz parte de um processo deliberado, por parte do capitalismo, no sentido de conseguir domar e controlar mais facilmente a força de trabalho. Ou seja, a tecnologia vem de encontro a um objetivo maior dos capitalistas visando fragmentar cada vez mais as tarefas, de forma que o mesmo trabalho possa ser executado por alguém menos qualificado e as etapas mais complexas possam ser atribuídas a um computador ou a um robô.

Ele analisa a questão da desqualificação sob um outro ângulo: com o aumento do nível de automação, a possibilidade de os trabalhadores terem acesso ao conhecimento do processo produtivo vai se tornando cada vez mais remota. Por isso, Braverman julga que a automação é, no fundo, um meio de acumular poder nos níveis mais altos da administração.

A esse respeito, diz Ratner que o desafio mais sério da automação está justamente na tendência que ela representa de reforçar a divisão do trabalho e, com ela, o controle centralizador e autoritário sobre os operários, ao mesmo tempo em que acentua as características alienadoras do processo de trabalho social. Ele pondera que a microeletrônica, em função do seu poder de eliminar empregos, pode ser vista como uma arma programada pelos capitalistas contra os movimentos operários organizados.

Braverman reforça essa linha de argumentação. Para ele, no início da revolução industrial, os trabalhadores foram espoliados dos meios de produção, que passaram a ser controlados pelos capitalistas. Mesmo assim, naquela fase, os trabalhadores controlavam individualmente todo o processo produtivo, o que significa que cada trabalhador começava e terminava um determinado artigo manufaturado. A partir de então, iniciou-se um processo deliberado de degradação do trabalho, visando sobretudo eliminar o poder dos trabalhadores.

Não só Braverman, mas também Marglin julga que este processo é conspiratório e deliberado, pois com ele fica eliminada a influência dos trabalhadores e, conseqüentemente, se consegue o enfraquecimento dos movimentos reivindicatórios.

Segundo Ratner, as implicaçöes políticas do processo de desqualificação do trabalho são evidentes, ao considerar que os patröes preferem aumentar o número de "colarinhos brancos" em vez de tratar com os operários, geralmente mais militantes. Ele assegura que a tecnologia não é ideologicamente neutra como muitos supöem. Ela é dependente das relaçöes de produção vigentes na sociedade, e como a maior parte do PIB é atribuída aos oligopólios, o desenvolvimento tecnológico também se dará de acordo com os interesses desses últimos. E nunca se dará no interesse dos trabalhadores. Mais adiante, Ratner conclui: "A análise de mão-de-obra não pode ser realizada no vácuo, desligada de desumanização ou alienação do trabalho humano, pela separação cada vez mais nítida entre o saber e o fazer." A automação, segundo Ratner, se apropria do "saber" profissional dos trabalhadores e o transfere para as máquinas e para os tecnoburocratas e administradores. Nessa nova fase, o planejamento e a coordenação passam a ser muito mais rigorosos e, com isso, o poder dos executivos fica ainda mais reforçado.

Concluindo, podemos dizer que neste trabalho procurou-se enfatizar as questöes referentes às mudanças na organização do trabalho decorrentes dos avanços da microeletrônica. Acreditamos ter dado bastante ênfase à questão da desqualificação do trabalho. É importante aqui frisar que, de uma forma geral, hoje, o trabalhador possui maiores conhecimentos técnicos. Esta é uma verdade que não implica que o trabalhador possua maior domínio sobre o processo de trabalho como um todo. Ou seja, quando falamos em desqualificação do trabalho, estamos nos referindo ao fato de que o papel desempenhado pelo trabalhador no processo produtivo é cada vez menos importante em relação ao papel das máquinas.

Mesmo o fato do trabalhador possuir maiores conhecimentos técnicos não pode ser generalizado, pois, em muitos caso, como vimos antes, as tarefas se tornam cada vez mais elementares e rotineiras, exigindo muito pouca ingerência operacional do trabalhador. Em muitas situaçöes, elas deixam de exigir o próprio trabalhador.

Este artigo foi publicado no livro "A Revolução Tecnológica e os Novos Paradigmas da Sociedade", IPSO 1994

Paulo Roberto Feldmann é Professor Doutor do EAD da FEA, USP


SUBIR PARA O TOPO DA PÁGINA VOLTAR AO ÍNDICE DE ARTIGOS