Analisando o mundo multifacetado - introduçãoFábio MetzgerQue mundo estranho é esse ?O fim da URSS, e o avanço dos EUA como a única potência hegemônica da atualidade deve estar nos oferecendo uma lição. Mas que lição é essa ? Uma série de conceitos políticos, que todos nós desenvolvemos para explicar os avanços e os retrocessos da civilização, passou a não operar mais. Diante disso, nunca foi tão importante como nos dias atuais buscar aspectos relevantes na discussão de como o sistema internacional de países opera. Nesse sentido, fica claro que estamos órfãos de uma forma binária de analisar o mundo, pelo menos do ponto de vista concreto. O extremo socialista e o outro extremo liberal já não se apresentam como referências de dois blocos políticos em oposição. Ao invés disso, podemos pensar na hegemonia de um só país, os EUA. Mas será que essa hegemonia se traduz em uma ordem internacional monolítica ? Obviamente, não. Há diversos fatores, não apenas políticos, mas também tecnológicos, científicos, econômicos, geográficos, demográficos e culturais que necessitam ser melhor investigados. Analisar o sistema internacional não pode mais ser uma pura e simples análise de blocos antagônicos de Estados Nacionais. Há, sem dúvida, novos fatores geopolíticos em jogo, incluindo a integração de alguns desses Estados em estruturas maiores do que eles mesmos. Temos a revolução científico-tenológica redefinindo os tempos e espaços desse sistema, o comércio internacional, o choque entre diferentes culturas e entre identidades culturais e a modernidade. Muitos desses processos sociais já estavam em curso, já na época da Guerra Fria. No entanto, eles ainda estavam submersos, diante de dois claros confrontos. De um lado, a oposição ideológica entre blocos políticos. De outro lado, um confronto particular, entre dois ou mais Estado Nacionais, por esferas de influência. A lógica da integração entre Estados em blocos político-econômicos maiores ainda estava dando seus primeiros passos, especialmente na Europa Ocidental. Nos dias atuais, essa integração já está mais avançada apesar de isto não significar a supremacia de instituições supranacionais nas principais decisões do mundo contemporâneo. Mesmo assim, com o fim da URSS, a questão ideológica, estando submersa, deu vazão a esses movimentos específicos do sistema internacional. De uma certa forma, o Bloco Socialista nos deixou alguma herança, mesmo que isso não fique muito claro aos olhos de grande parte dos observadores. A própria noção de internacionalismo e a construção, agora interrompida, das estruturas do Estado de Bem Estar Social já são aspectos que, sem dúvida nenhuma, tiveram influência decisiva, partida do conjunto de propostas e causas que o socialismo clássico propôs. Mas qual é a natureza desse internacionalismo ? De onde vem sua supremacia ? É preciso fazer uma análise calma e cuidadosa com relação ao posicionamento político que cada bloco ideológico dos tempos da Guerra Fria propôs. Seria muito fácil aceitarmos a seguinte equação. De um lado, a esquerda, na ofensiva, defendendo um processo de abertura das identidades nacionais. De outro, a direita, conservadora, querendo que essas identidades sejam mantidas, em nome de uma classe hegemônica e do apelo emocional que os nacionalismos pressupõem, diante da vontade popular. É possível que a URSS como entidade supranacional e o movimento comunista, com a defesa de uma causa internacionalista, já tenham nesse embate, pensado um mundo que iria além de fronteiras restritas. De outro lado, é plausível que os países ditos ocidentais tenham defendido o Estado Nacional como forma de articular ainda mais um poder já consolidado. Ao mesmo tempo, o bloco socialista e a esquerda, de um modo geral, pensaram em conceitos como a construção de uma economia baseada no Estado, enquanto a direita, apesar de aceitar o papel do Estado interventor, em diversos momentos, preferiu valorizar as bases do livre mercado e enfatizar o valor da manutenção da propriedade privada. E em um determinado momento, uma corrente de pensamento da direita veio com uma proposta ainda mais radical: a de que o Estado, sendo ineficiente, se torna desnecessário, sendo preferível desmontar suas estruturas e delegar funções de bem comum para grandes corporações. O período pós-Guerra Fria assiste hoje a dois processos, um, tendo sido a velha causa da esquerda, e outro, uma defesa da direita: o internacionalismo aliado do liberalismo. A verdade é que o liberalismo virou o combustível desse processo de internacionalização. E isso já nos remeteu a uma realidade bem clara: não é a solidariedade social que está expandindo as fronteiras dos Estados Nacionais para esferas continentais, e até mesmo globais, pelo menos por enquanto. A internacionalização está sendo feita através de agentes econômicos advindos de uma classe dominante que, antes de pensar no bem comum, está mais preocupada com lucros de curto e médio prazos. A URSS e sua integração internacionalista se deu, não pela concorrência de agentes econômicos livres, mas sim pelo avanço do Estado ideológico à frente desses mesmos agentes. Sem URSS, ficou abolida esta forma específica de expansionismo internacional. No atual momento, os avanços técnicos promovidos pela revolução científico-tecnológica estão tendo impacto na superação de tempos e espaços pensados nos antigos Estados Nacionais. Assim, o discurso liberal passou a ser primordial, não com relação à preservação daquele velho Estado Nacional, mas sim na consolidação de algo maior. Ao mesmo tempo, uma parte da esquerda, diante do desmonte desses Estados, passou a defendê-los dentro de suas bases anteriores, que se não eram socialistas, ao menos tinham um aspecto intervencionista protetor do tecido social. Curiosamente, esse era um modelo defendido pela maior parte da velha direita, ao longo do Século XX. Fica muito claro que as bases de pensamento mudaram. Notem que aqui estamos analisando os conceitos de direita e esquerda dentro de conceitos já internalizados por nós, de muitos anos. Obviamente, os conceitos de esquerda e de direita não mudam, se formos pensar o que o momento e o motivo que os originou. No entanto, a esquerda de hoje não é, de modo algum, como a esquerda de trinta anos atrás. E por incrível que pareça, até mesmo a configuração da direita também está bastante modificada. No entanto, só será possível compreendermos o significado de uma e de outra, a partir do momento em que analisarmos a complexidade desse novo sistema político-econômico. É de respostas a essa complexidade que precisamos, para reformular esses conceitos, e não será através do antagonismo entre entidades fechadas de Estados, blocos e ideologias que poderemos articular qualquer espécie de definição. Um Mundo Unipolar, mas MultifacetadoQuando observamos a Nova Ordem Mundial, nos deparamos com uma realidade que, por si, parece sintetizar todas as relações políticas econômicas e sociais do planeta, a partir de um único núcleo de poder. E, mesmo assim, esta realidade não é suficiente para explicar e constatar o mundo em que vivemos. Os modelos bipolares dos tempos da Guerra Fria até admitiam graus menores ou maiores de engajamento político e econômico a cada um dos blocos. Assim, a Europa tinha seus países ditos neutros, mas mantendo um modelo econômico ao de seus vizinhos do Oeste. Os países não-alinhados criaram estruturas capitalistas com um Estado interventor, tornando-se fiéis da balança no equilíbrio de pólos EUA x URSS. Mesmo assim, o confronto se dava a partir de modelos em oposição. Com o tempo, um certo pragmatismo foi tomando conta de cada um dos países membros dos blocos, definindo suas respectivas estratégias, de acordo com a possibilidade de inserção internacional que se apresentava a eles. Houve países, dentro da órbita do Terceiro Mundo que se aproximaram, por esse modelo, da URSS, tais como a Índia e o Egito, sendo que este último declarara seu regime de ‘socialista’. Obviamente, alguns dos regimes ‘socialistas’ perseguiram membros do Partido Comunista local, tal como no Egito e no Iraque. Houve casos de países não-alinhados, dentro da órbita soviética, que se aproximaram do Ocidente, tal como a Iugoslávia, que mantinha um modelo de governo socialista próximo ao soviético, mas não fechava posição com a URSS, recebendo inclusive investimentos de países do bloco Ocidental. Ao mesmo tempo em que os não-alinhados estavam mais próximos da URSS, alguns países na África, na Ásia e na América Latina sofreram intervenções de regimes militares declaradamente anti-socialistas, com o apoio dos países do Ocidente. Mas mesmo com essas nuances, a base da luta política ainda estava baseada em extremos. Se em um primeiro momento o confronto Socialismo versus Capitalismo se iniciou pelo meio da guerra de propaganda e do exemplo de modos de produção, posteriormente, a questão ficou mais limitada apenas à retórica dos respectivos blocos. Nos anos 1970, esse aspecto ficou ainda mais evidente, como no momento em que a China se afasta da URSS e se aproxima dos EUA, criando pontes com o Capitalismo mundial. Ou quando eclode a Revolução Islâmica no Irã, derrubando um monarca pró-EUA e criando outra estrutura que, mesmo formalmente capitalista e anti-socialista, era também frontalmente anti-ocidental, com um modelo de governo com Estado e religião associados. Nos anos 1980, o confronto político ficou ainda mais preso à retórica, dada a decadência do bloco do Leste Europeu e a queda da URSS. Se nos anos 1950 e 1960, regimes socialistas ‘de face humana’ foram derrubados pelo Exército Vermelho na Tchecoslováquia e na Hungria, isso escancarou a enorme dificuldade das fontes de poder do bloco socialista de acompanhar a evolução de uma integração de formas de estruturas de produção estatais e de mercado. A China, de um dos lados e a Europa social-democrata, do outro, estavam dando os primeiros saltos nesse avanço. A estrutura estatista da China abria pontes com a economia de mercado e a Europa capitalista criava as bases para um Estado de Bem Estar Social que garantia direitos sociais aos cidadãos de seus respectivos países. No entanto, estamos falando de um confronto de extremos, e nem a China e nem os países europeus se apresentavam como as maiores superpotências. E com o fim da URSS, permaneceu uma das modalidades desse confronto de extremos, qual seja, o extremismo liberal capitalista, capitaneado pelos EUA. *** É por meio dessa hegemonia unipolar, de Estados mínimos e mercados liberalizados, que o avanço técnico da globalização está sendo implementado. Isso pressupõe o avanço de grandes corporações transnacionais dentro de estruturas nacionais, enquanto os Estados Nacionais têm suas bases desmontadas. Com isso, uma nova estrutura de poder se consolida, criando, mais uma vez, efeitos devastadores dentro do sistema internacional. Mesmo os países da Europa Ocidental, que mantiveram a estrutura de Estados de Bem Estar Social voltada para seus cidadãos estão sofrendo com essa transição. A exposição à competitividade global está resultando no o desemprego estrutural e o envelhecimento da população. Sem ação, os governos colocam em prática privatização das empresas nacionais européias, e reformas impopulares nas áreas sociais. A China, apesar de manter a estrutura de seu Estado, enquanto se integra ao Capitalismo global, só se mantém bem sucedida, na medida em que seu governo impõe medidas autoritárias, criando uma falsa sensação de que tudo está bem. A falta de uma oposição política reconhecida facilita a tomada de medidas pelo governo chinês, de modo que este, de um lado, cria uma estrutura rígida onde o Estado se molda, enquanto investimentos estrangeiros entram, sem provocar maiores rupturas na estrutura estatal. Mas essa estrutura só funciona, na medida em que existe apenas um sentido de comando, fazendo com que todos os cidadãos tenham que se adaptar, a despeito de terem a possibilidade de serem prejudicados, sem que eles possam expressar de maneira direta a sua insatisfação. Em tempos de globalização, em uma situação onde mercado e democracia se encontram, o Estado Nacional se torna frágil. Dado que a globalização reduz o espaço e o tempo dos contatos, das trocas e processos econômicos, agentes sociais mais eficientes ocupam o lugar dos Estados Nacionais, cujo alcance se dá apenas dentro de suas fronteiras definidas. É preciso pensar Estados de maior dimensão, que possam controlar as atividades do Capital, como a China, mas mantendo uma mínima inclusão democrática como os países da Europa Ocidental em processo de integração. A verdade é que o extremismo liberal está diminuindo o tamanho do Estado, sem uma reposição equivalente para o espaço público. O ideal de um Estado como a representação de todos os seus cidadãos está sendo deturpado por instituições que valorizam o privado, no sentido do lucro imediato de quem controla suas respectivas atividades. A verdade é que o foco de análise da concepção do Estado Nacional como meio de promoção daquilo que é público está se tornando ultrapassada e, nesse sentido, o melhor é pensar, não em fronteiras nacionais delimitadas, mas sim dentro de um espaço global. É dentro dele que estão sendo desenvolvidas as mais novas modalidades de lutas políticas. E é nesse espaço que a idéia de Estado como representação autêntica do povo precisa se reconstruir, não mais em dimensões regionais, mas sim em espaços subcontinentais e continentais. É essa a leitura que os países da União Européia estão fazendo, acertadamente, para a redefinição da estrutura de seus países. É ainda uma tentativa incipiente, mas sem dúvida válida. De fato, o processo de globalização cria uma estrutura totalmente nova de poder. De maneira que elites globais e membros das antigas estruturas estatais se associam, tornando a forma de análise dos tempos atuais muito mais complexa. A partir da dominação dessas mesmas elites e membros, ambos integrados com uma base popular, ora indiferente, ora radicalizada, se desenvolve uma série de modelos políticos, econômicos, sociais e até culturais. O resultado desta série de bandeiras e propostas postas em sobreposição, harmonia e diacronia foi a adaptação ou a desadaptação de cada país ou conjunto de países com relação ao conjunto estabelecido, que se traduz pela redefinição do sistema internacional.. Diante de todas as nações, assiste-se a um novo ciclo. Essas nações estão, na verdade, entrando em uma nova fase de sua história, onde precisam realizar um esforço extra para fazer parte da economia global, apesar de não estarem preparadas para um embate mais direto com as grandes potências. De olhos fechados, pensemos no Mundo Geográfico, como uma faceta do atual sistema. *** Um mundo, em tese, sem fronteiras, em que o governo seria global, assim como as comunicações, a cultura, a política, a economia. Algo que coincidiria com os acidentes geográficos da Terra. Mas que, no entanto, é algo ainda impraticável. Mesmo que optemos por não incluir as fronteiras nacionais na análise do sistema internacional, haverá sempre uma distribuição de poderes que vai além da geografia. É preferível encarar o mundo, a partir das esferas de poder que já estão constituídas, e aquelas que estão sendo consolidadas, justamente aquilo que caracteriza-se pelo esquema de dominação de um bloco de países onde se destaca os EUA, países de primeiro-mundo, e onde se estabelece uma relação de poder entre países ticos e pobres, através das instituições chamadas de multilaterais. Chamamos essa faceta do sistema de Mundo Político-Econômico. *** Para que este Mundo Político-Econômico se sustente, é preciso que exista uma manipulação, uma dominação de cada gomo regional do planeta. É como se, a partir dos eventos de cada local, as potências hegemônicas interferissem, associando-se a potências médias regionais na conjunção de interesses específicos, onde o poder maior tende às primeiras, enquanto as últimas limitam-se a contar com eventuais benefícios políticos e econômicos. Podemos denominar este mecanismo como Mundo Geopolítico *** Nessa faceta do sistema internacional, é possível notar que há países que estão em uma região e podem atuar em outra, como é o caso do Paquistão, pertencente à área geográfica do Hindustão, mas que controla a região da Ásia Central. Assim como o México, que pertence à América do Norte, e atua na América Central e Caribe. Ou Espanha e França, que estão na Europa Ocidental, e possuem o seu raio de ação extensivo à África do Norte. Ou mesmo Rússia e Alemanha, ambas nações européias, que coordenam ações no Leste Europeu. Há uma ordem arranjada e rearranjada de países, que afirmam e reafirmam os valores democráticos básicos ou, pelo menos, seguem os ditames impostos pelo Sistema Internacional. Por outro lado, populações e elites locais assumem sua identidade, como meio de preservação do poder das últimas e das bases sociais das primeiras, e reagem ao avanço de estruturas de poder que são, originalmente, exteriores a elas. Temos, por assim dizer, uma base cultural que foge do total controle das elites das potências hegemônicas. Um mundo de base, que não depende dos governos, mas que às vezes até coincide com eles, como foi o caso do Irã, no momento de sua Revolução Islâmica, no ano de 1978. Este mundo não se baseia nas religiões de cada país, mas sim na integração cultural que cada região foi capaz de produzir por si só. Digamos que há casos em que as populações locais e as elites são mais receptivas ao processo cultural global. Mesmo assim, não há como negar que mesmo ambas reincorporam a sua maneira aspectos desta cultura global, redefinindo sua identidade específica. Este é o Mundo Cultural, com uma apresentação de áreas geográficas a partir da perspectiva cultural de populações que reivindicam sua soberania e autonomia, e reagem de acordo com suas tradições culturais e conhecimentos em relação à interação que o mundo da globalização proporciona. Antes de qualquer observação, é preciso ressaltar que conceber o Mundo Cultural, dentro de qualquer formação de blocos fechados, é inadequada. É mais plausível pensarmos em um modelo de referências culturais básicas, tais como religiões (islã, budismo, cristianismo, etc.), modelos nacionais culturalmente construídos (latino-americanos, nipônicos, italianos, negros dos EUA e de outros locais, bascos, judeus, etc.) e grupos lingüísticos (latinos, francófonos, anglófonos, árabes, germânicos, etc.). Essa faceta já é tão complexa, que o melhor é não traçar um mapa geopolítico como se tivéssemos blocos tais como eram os do Socialismo versus Capitalismo, durante o período da Guerra Fria. Então, vamos imaginar duas concepções deste Mundo Cultural, uma difusa e outra, adaptada à realidade globalizante. *** O Mundo Cultural Difuso traz dentro de si as referências de áreas de geográficas com os critérios que levam em conta a história de antigas culturas, civilizações e religiões, os aspectos demográficos, e as interações que as populações de cada bloco costumam Ter em relação à globalização (aliás, esta é a referência central). Geralmente, essas classificações podem parecer generalizadas, e buscar muito mais uma simplificação de uma realidade complexa do que uma compreensão mais ampla. É possível que isso pareça um reducionismo. Mas serve para um bom ponto de partida para a compreensão da conjuntura mundial, se for levada em conta a tese de que essas nações podem possuir histórias em comum. A princípio, unir muçulmanos, cristãos, judeus, ateus, budistas e outros no mesmo barco não é motivo para se criar grandes confrontos, nem imaginar supostas estruturas geopolíticas. No entanto, na política dos dias atuais, alguns governantes, parte de membros de um certo clero religioso e imensas massas de populações utilizam a retórica da história comum da vida religiosa para criar uma justificativa de confronto em relação à ideologia hegemônica. E esta fabrica, dentro de seus interesses, uma identidade de superioridade cultural para justificar suas intervenções e ingerências fora de seu âmbito. Isso é muito verdadeiro em relação a populações muçulmanas de determinados países e de uma elite cristã norte-americana. Uma coisa são os governos dos países muçulmanos, que possuem a sua própria política, a outra é a identidade cultural dos muçulmanos, que, diante de uma situação política e econômica precária, são alvos fáceis daqueles que pregam a responsabilidade do que lhes acontece a um Ocidente, ‘pervertido’ e satânico com o qual se defrontam. A Índia, com os seus problemas estruturais, e com uma população enorme tomada por uma ideologia tradicionalmente avessa ao consumo, sobrevive dentro de um mercado relativamente fechado e um sistema político de instituições peculiares. Sua população, acostumada à ideologia da divisão social da sociedade em castas, não chega a viver o mesmo nível de convulsão de sociedades de maioria muçulmana. A integração, se ocorre, é lenta. Mesmo assim, como em qualquer outro local, a Índia também está sujeita a extremismos. Os partidos e organizações extremistas hindus não deixam de influenciar de maneira agressiva a política local. O último governo do BJP pode certamente ter sofrido essa influência. A China e seus satélites têm uma sociedade disciplinada. Alguns agentes sociais participam ativamente da política oficial, mas eles não podem sair do controle da classe dirigente. Assim, a população desta região aceita passivamente os preceitos governamentais impostos, enquanto algumas redes de cidades desenvolvem sua economia de mercado, dentro de uma parceria em que o Estado e o Capital se associam, sendo que o primeiro predomina. O fato é que o regime chinês também está sujeito aos seus extremismos, assim como seitas religiosas que se opõem a ele. Obviamente, há muitos locais, onde o elemento comum é a miséria, a fome e as doenças mortais, além de diversas guerras tribais ou entre grupos ideológicos, com a maioria de sua população isoladas em situações em que sequer podem pensar em reagir. Será que é possível se traçar uma fronteira política, nesse caso ? Isso, por conta do simples fato de que, nem sempre tais conflitos coincidem com as fronteiras nacionais reconhecidas internacionalmente. Por outro lado, existe um clube de países culturalmente similares entre si, que possuem um mínimo de estabilidade política e fronteiras abertas o suficiente para fazerem trocas, que incluem o intercâmbio de bens simbólicos. É nesta realidade que as populações da América do Norte, rica, e a América do Sul, pobre, mas minimamente democrática, a Europa Ocidental, também bem abastada, e a Oriental, incluindo partes da Rússia, mais modesta, Taiwan e Coréia do Sul, além das bem desenvolvidas Austrália e Nova Zelândia, e as nações periféricas, África do Sul, nações da Oceania, além de Israel criam um espaço, em que as suas populações reagem livremente, com idéias e práticas politizadas ou despolitizadas. Com o endurecimento da política global, a tendência é que estas trocas percam uma certa margem de ação, mas que não tendem a deixar de existir, a apesar do não interesse de alguns grupos hegemônicos. Para que a interação desses povos subsista, é necessária uma indústria cultural que vai além desta área. Este Mundo Cultural, de certa forma, exprime alguns dos limites da globalização.. *** No entanto, a realidade é que os países ainda se dividem através de seus Estados-Nação, ou seja, por meio de sua estrutura anterior do Mundo Político. As nações ainda conservam parte de sua soberania, e é por ela que exercem seu poder, sua influência, seu jogo de interesses. E é esta a realidade que se desenha, diante do cenário do mundo. A interação mais importante depende da palavra final dos governantes, e é isso que o Mundo Político leva mais em conta, apesar das demandas populares e culturais. *** Esta ação dos Estados-nacão faz com que o Mundo Cultural ganhe uma outra configuração. Na prática, são os interesses e o discurso dos Estados-nação mais ricos que acabam prevalecendo. Esta situação cria uma hierarquia de países que se organizam através e a partir de um conjunto de referenciais culturais nem sempre partilhados por todas as nações do planeta. Cria-se assim uma esfera de poder, a partir da qual posicionam-se quatro categorias de Estados-nação: a Potência Maior, as Nações Núcleo, as Nações Adaptadas, e os Nações Desadaptadas. A Potência Maior é os Estados Unidos da América. Representa a nação que melhor se adapta ao sistema, e que consegue estabelecer ao mundo as regras que melhor lhe convém. Regras como, por exemplo, a abertura dos mercados, e ligação eletrônica entre as bolsas de valores e livre movimentação financeira. Com tudo isso, seus prejuízos são mínimos, uma vez que as regras que são ditadas para outros, não sacrificam a realidade americana. A estrutura descentralizada e de livre movimentação física de sua população permite com que o livre mercado não prejudique os EUA, de modo que esta ideologia seja a melhor internamente. As Nações Núcleo representam o Canadá, Austrália, Nova Zelândia e as nações membros da União Européia. Os critérios para que elas estejam com tal classificação é a de que ambas integram um núcleo de parceira com a Potência Maior, de modo a minimizar o seu prejuízo no jogo da Globalização. Dentro do jogo, perdem. Fora, perdem mais ainda. Outro critério é a similaridade cultural. Não precisam sacrificar sua constituição cultural original, adaptando-se ao costume hegemônico, apenas criando condições para se sujeitar à realidade econômica maior. As Nações Adaptadas mais distantes da rede de poder constituído. E isto ocorre na medida em que a distância cultural limita comunicação das populações de determinados países com as reivindicações da realidade global e estrutural (o caso de China, Índia, alguns países islâmicos, Japão, Taiwan e Coréia do Sul), ou a pobreza e miséria limitam o poder de barganha para que alguns líderes negociem a integração de seus respectivos países em melhores posições (o caso da América Latina, Leste Europeu, Rússia e África do Sul). Este isolamento faz com que as nações distantes culturalmente (China, Índia, países islâmicos, Japão, Taiwan e Coréia do Sul) tenham que se adaptar para que mantenham um certo nível econômico de sua população. Enquanto que as nações mais pobres precisam aproveitar a similaridade cultural e acreditar que a estrada única de desenvolvimento será a melhor alternativa, sacrificando uma boa parcela de sua população, despreparada do ponto de vista da concorrência (caso de Rússia e Leste Europeu), ou da falta de preparo intelectual (caso dos países da América Latina). Finalmente, podemos enumerar as Nações Desadaptadas. São nações pobres e distantes culturalmente ou desconectadas do sistema global. São integrantes deste bloco as nações da África subsaariana, alguns países da Ásia Oriental, algumas nações do Sudeste Asiático, a Coréia do Norte e uma outra quantidade de países islâmicos. *** A classificação de Nação Núcleo ou Adaptada ou Desadaptada tem o critério de nível de integração ao poder mundial. Em muitos momentos, pode parecer que existe uma estrutura evolucionista com sociedades ‘mais adaptadas’ e outras ‘menos adaptadas’. Esta classificação apenas mostra que esta adaptação se dá através de uma escala de valores imposta de cima para baixo, em que uma pretensa superioridade cultural é proclamada, e mostrar que há nações que se sacrificam para se aproximar mais deste modelo, e outras que simplesmente não conseguem sequer se aproximar deste ideal. *** O Mundo Cultural Concentrado é justamente um universo feito à imagem e à semelhança de uma forma hegemônica, a partir da perspectiva, onde se nega ou aceita essas particularidades culturais. Dentro desta situação, no entanto, opera o poder político, dentro da realidade em que vivemos. *** Esta, na verdade, é a estrutura histórica, o resultado de todas as lutas de base e dominações colonialistas e imperialistas que hoje constituem o conjunto dos Estados-Nação do Globo Terrestre. Este Mundo Cultural é o resultado de séculos de duas tradições, a oral e a escrita, que se estabeleceram e se difundiram dentro de um grande ou pequeno conjunto de sociedades. O Mundo Cultural cria uma identidade de povo e propicia alguns traços de solidariedade entre eles, a tal ponto, que as diplomacias dos países possam bem se relacionar. É claro, isto não é regra, pois, caso contrário, Irã e Iraque seriam duas nações necessariamente amigas, e não teriam travado uma longa guerra que devastou ambas. A verdade é que diversas camadas dentro de cada sociedade tende a criar simulacros da antiga tradição cultural delas, como uma forma de se opor a uma espécie de realidade onde elas nem sempre se beneficiam. Assim, conforme a continuidade histórica, os governantes tomam partido de seus povos e de estruturas de propaganda e difusão contra-culturais, de maneira a se manter. Meios avançados de propaganda, eles possuem. De maneira que seu discurso imobiliza, na maior parte das vezes, os movimentos radicalizados. *** Olhando tudo isto, do ponto de vista mais abrangente possível, a conclusão é a de que o mundo em que vivemos não é multipolar sem uma potência dominante, onde a globalização econômica faz com que todos se nivelem por baixo. Tampouco um mundo uni-multi-polar, onde existiria um suposto choque de blocos políticos, definidos como ‘civilizações’. E muito menos, absolutamente unipolar, onde todos os países são meros servos de uma potência maior. É preciso levar em conta muito mais aspectos do que a realidade econômica global, sem dúvida, um fator de nivelamento das forças políticas, e do que as diferenças históricas entre algumas nações, que podem ser postas como questões de resolução regional, mas jamais como um choque global. Há países muçulmanos e cristãos que são vizinhos entre si, e possuem boa convivência. O exemplo é a Turquia, muçulmana, e a Bulgária, cristã ortodoxa. Além disso, é preciso diferenciar: um conceito é o de ‘civilização’, ao qual se agrega a edificação de uma cultura, de um império, de uma nação maior, com forças armadas, tudo isso, envolvendo uma grande unidade, abraçando pátrias e nações semelhantes. Outro conceito é aquilo com o qual atualmente lidamos, que é a própria cultura. Esta está inserida na civilização global. Ela não pode se confundir com uma civilização. O conceito de cultura, por sua vez, abrange um mundo de elementos simbólicos, transformando-se em uma tradição histórica, como se dá com a cultura chinesa, a cultura muçulmana, a cultura brasileira, dos índios astecas, etc. O que acontece é que existem pequenas civilizações (ou o contrário disso, pois não agem com civilidade) que entram em frontais choques culturais. E isto, devido a uma série de particularidades históricas que fogem ao controle deste ou daquele imperialismo. O Império Central, desta forma, só age, em última necessidade, intervindo militar ou economicamente na área contra uma das partes, e isto, se apenas um dos grandes interesses hegemônicos estiverem sendo desafiados. Do que se pode deduzir, a partir disso ? É que, a partir da base cultural, do controle geopolítico e da dominação político-econômica, constatamos de que o mundo é unipolar e multifacetado. Ele tem uma só dominação, mas diversas alternativas de sobrevivência que não se indisponham em relação ao dominador. Portanto, são diversas as formas de dominação ou de coexistência: pela cultura hegemônica, pelo controle militar, pela cultura contrária combinada com um apoio aos países centrais, pela vigília permanente ao outro país, pela negociação forçada com as principais nações, etc. Não há um modelo fixo de dominação. Os EUA, por exemplo, têm maiores dificuldades em se impor em relação à China. Sua opção é integrá-la, declarando-a “Parceiro Econômico Preferencial”. Este Mundo Unipolar Multifacetado é apenas uma forma de dominação conservadora, sem contestadores suficientes que possam reverter o processo histórico. Os extremismos ideológicos e culturais pressupostos dentro dele são inerentemente conservadores. São utilizados como meios simplistas de controlar as esferas maiores de poder, tanto quanto as menores, dependendo da região e dos fatores envolvidos dentro dela. Estamos falando, sem dúvida, de um mundo tão vasto e incoerente que, tomado de contradições, tende a se desestruturar. Isto também leva em conta o sistema de produção de bens, apesar de haver boa possibilidade de uma mudança no modo de produção. Em suma, o Mundo Unipolar Multifacetado é apenas uma forma de dominação, sem contestadores fortes o suficiente para reverter o processo histórico. Esta mudança é desconhecida, não se tem certeza sobre o que será criado. Apenas se tem ciência de algumas possibilidades presentes. Geopolítica InstitucionalPensar em um Mundo Multifacetado nos força a imaginar estruturas que possam ir além das formas tradicionais de atuação política, dentro do espaço das nações. Há uma série de mudanças em curso no mundo. Para o bem e para o mal, estamos vendo diversas formas de manifestações, que se fazem, não mais dentro dos moldes diplomáticos. Poderíamos mesmo dizer, que são formas institucionais de intervenção política. Instituições de propostas construtivas, mas também de propostas destrutivas. Instituições dentro da lei. Mas também instituições à margem da lei e da sociedade, atuando por conta própria. E também organizações que não são necessariamente definíveis como instituições, mas que foram assimiladas pela população de um determinado local. No primeiro caso, estamos falando do desenvolvimento de Organizações Não Governamentais, de caráter ambientalista, feminista, pacifista, de respeito aos direitos das minorias, de ação social voluntária, defensoras de reforma agrária e urbana. Estruturas políticas que, de um lado, podem ser bastante construtivas, na defesa do meio ambiente, dos direitos dos cidadãos, da justiça social, etc. Por outro lado, podemos falar de estruturas de ação política agressiva, pouco refletida, voltada para uma proposta de “salvar o mundo”. São instituições que seguem, cada uma, uma linha ideológica própria, e que, criam uma espécie de uma nova hegemonia progressista. Em meio aos mais radicais e aos mais moderados, há, de maneira geral, um apelo justo, por defender o bem estar social para todos. No segundo caso, falamos de organizações terroristas, tal como a Al-Qaeda, com os seus métodos, o extremismo religioso, o uso de militantes suicidas, matando milhares de pessoas. É a religiosidade na pior acepção do termo. Uma busca, por vias destrutivas, de um mundo idealizado, onde “leis de Deus” se impõem sobre um determinado espaço, sufocando populações inteiras. Podemos incluir, nesse quesito, uma série de organizações, não apenas islâmicas, mas também cristãs, judaicas e de outros credos. Não estão necessariamente difundindo a ideologia religiosa, como um bem comum. Estão, de fato, ampliando os espaço do obscurantismo, das trevas, do combate à racionalidade da ciência, da violência ao direito do indivíduo. Curiosamente, essas organizações utilizam os meios mais modernos dos tempos atuais, dentro da área da informática, das telecomunicações, da comunicação de massas. Do mesmo jeito, organizações ultranacionalistas, tais como as encontradas na Europa e os milicianos dos EUA, também se encaixam nesse perfil. Querem o isolamento de seus países em relação ao mundo. Expõem a aversão a imigrantes vindos do terceiro mundo. Há casos de manifestações anti-semitas e contra os negros. São instituições, ou simulacros de instituições, que difundem sociedade adentro, a intolerância racial e cultural. De uma forma ou de outra ativam dentro do imaginário comum das populações desses locais reivindicações para que imigrantes ilegais do terceiro mundo sejam expulsos, ao mesmo tempo em que novos imigrantes passam a ser proibidos de entrar. É como se Europa e EUA se tornassem um imenso feudo de bem estar, diante de um resto do mundo empobrecido e embrutecido. E diante dessa realidade, em partes do resto do mundo, surgem propostas obscurantistas de colocar o apelo da religião, na sua mais odiosa forma de interpretação, como se fosse uma solução para sociedades atrasadas, mergulhadas em guerras civis, vítimas de doenças, fomes e outros tipos de males. Certamente, os governos, tanto do Norte, quanto do Sul, incorporam suas respectivas formas de obscurantismo, derivadas dessas instituições de caráter conservador. Veto às teorias de Darwin nas escolas, obrigação de homens e mulheres se vestirem da forma tradicional, combate ao homossexualismo como se este fosse um crime, impedimento radical à imigração de populações vindas de localidades mais pobres, todas essas medidas acabam sendo aprovadas por governos que sofrem o cerco do radicalismo conservador. No terceiro caso, falamos do desenvolvimento de organizações sem ideologia, e, portanto, sem um discurso em nome do “bem comum”. Não precisam ser chamadas de “instituições”, apesar de em alguns casos, ganharem o apoio da população de determinados locais. Uma população que vive em regiões mais isoladas e abandonadas, onde instituições legais não são fortes o suficiente para se fazerem presentes. Falamos das organizações criminosas, que controlam negócios ilegais, e impõem a sua própria lei. São estruturas que vão se formando dentro de um espaço de vácuo de poder, e que ganham vida própria, na medida em que seus negócios se difundem. Elas penetram no tecido social de favelas e bairros pobres de países subdesenvolvidos. O Estado, pouco eficaz, para atender as necessidades básicas da população, se vê alijado, diante do crescimento dessas organizações. Com os lucros obtidos nos negócios ilegais, e com os meios técnicos e tecnológicos avançados, o crime organizado ganha contornos globais, e conseguem estabelecer conexões, até mesmo em regiões mais centrais, dentro de atividades tais como o tráfico de drogas, o contrabando de mercadorias, a pirataria de diversos tipos de produtos, o controle de atividades consideradas “marginais”, tais como jogos de apostas ilegais, a prostituição e o trabalho semi-escravo em locais escondidos. *** A verdade é que, ao falar de uma Geopolítica institucional, estamos falando de novas vias de interpelação transnacional, que vão além dos Estados Nacionais e de organizações internacional oficiais, tais como a ONU. Falamos de instituições e outras formas de organização que, por meio de seu apelo, radical ou moderado, interferem nas leis nacionais e criam suas próprias leis, de maneira a preservar interesses econômicos e ideológicos. E nesse sentido, não podemos deixar de explicitar a ação das corporação transnacionais, justamente as organizações mais poderosas do mundo contemporâneo. É a partir dos lucros obtidos por elas, que verificamos muitos dos por quês da grande concentração de renda no mundo contemporâneo. Elas também podem ser vistas como instituições, por que não ? Instituições com fins lucrativos e interesses em diversas partes do mundo. Sua ênfase no lucro, no acúmulo de bens, na manutenção de uma estrutura de poder, é reveladora. A diferença das grandes corporações em relação ao crime organizado, é que elas atuam de acordo com as leis nacionais, em que elas mesmas conseguem mudar ou preservar, conforme seus interesses. Elas são grandes produtoras dos mais diversos tipos de insumos, objetos de consumo, grandes prestadoras de serviços, difusoras de uma vasta indústria cultural. Para todas as formas de ação, elas acabam criando estratégias mundiais, ou pelo menos, estratégias personalizadas, dentro de cada região em que atuam. Assim, uma grande transnacional produtora de automóveis, pode lançar um carro popular em todos os locais do planeta, com uma mega-campanha publicitária de difusão de sua marca. E pode vender, em locais onde o padrão de consumo é mais alto, esportivos de alta performance ou carros de luxo. *** Mas além das transnacionais, ONG’s, movimentos terroristas, e do crime organizado, há instituições a serviço de Estados Nacionais. Elas realizam aquilo que alguns governos denominam “diplomacia por vias múltiplas”. São ONG’s de fachada, clubes internacionais e associações de diversas espécies, que podem ter como objetivos declarados “promover a paz entre povos”, ou “preservar o meio-ambiente” ou até mesmo “defender os direitos humanos”. Na verdade, estão trabalhando como produtoras de discursos úteis para os Estados Nacionais. E em alguns momentos, podem estar fazendo um trabalho diplomático que os Estados Nacionais acabam não fazendo. Ou seja, há momentos em que a “diplomacia por vias múltiplas” acaba sujando as mãos, enquanto os Estados Nacionais apenas assistem e, ocasionalmente, posicionam-se com discursos construídos por essas instituições. Nesse sentido, há de se destacar o papel dos think tanks, que influenciam os governos. São instituições de pesquisa e ideológicas que, mesmo que não façam a “diplomacia por vias múltiplas”, acabam se tornando verdadeiras “bússolas” para esses governos. São, em muitos casos, instrumentos para a legitimação de políticas públicas, mesmo que essas sejam perniciosas para a população. Prestam-se a atuar dentro de um espaço de pressão sobre as agendas políticas dos governos. E acabam se tornando instrumentos que vão além de sua proposta de pesquisarem realidades sociais específicas. Alguns desses institutos se tornam verdadeiros lobistas, defensores de interesses das mais variadas origens, encobrindo outras espécies de instituições. A crise dos Estados NacionaisEm um determinado momento histórico, os Estados Nacionais se apresentaram como os principais atores do sistema Geopolítico global. Em torno deles, se formaram todas as espécies de estruturas de vanguarda para atuar dentro do sistema. Corpos diplomáticos, exércitos, polícias, códigos de leis, etc. Cada Estado Nacional, com seus recursos, era um tomador de decisões central, dentro da dinâmica geopolítica. O processo de globalização técnica, tecnológica e econômica, pode ter mudado parte dessa realidade. Instituições e organizações em diversos níveis passaram a atuar por conta própria. Os Estados Nacionais estão perdendo parte de seu poder efetivo. Meios de comunicação como a Internet criaram um espaço onde o Estado Nacional passa a ser mais um elemento e não necessariamente o mais importante. Tudo isso expõe uma crise. Mas de que crise se trata ? Estamos falando de um novo cenário, onde os Estados Nacionais não os únicos atores do jogo político internacional. No entanto, eles ainda são muito poderosos, e podem, à sua maneira, manter-se na vanguarda desse jogo. Sua estrutura é diretamente influenciada pelas classes hegemônicas dos países e as grandes corporações com poder econômico. Quer dizer, o Estado Nacional, tido como uma ferramenta para o cidadão, se tornou uma espécie de agente defensor de interesses econômicos. Dentro do processo de globalização, ele acaba se apresentando como um executor de estratégias da inserção do Capital nacional dentro do ambiente. Seu papel de gerenciador de políticas públicas tem se enfraquecido, dando lugar a outra função, a da inserção das elites nacionais que o influenciam, perante o avanço global de corporações e governos de outros locais. Dentro da formação de blocos supranacionais, tais como a União Européia e áreas de livre comércio, tais como o NAFTA e a APEC, os Estados Nacionais traçam estratégias de integração de maneira a ampliar as áreas de livre comércio e a sofisticar a Divisão Internacional do Trabalho, que passa a ser, cada vez menos, desenvolvida entre Estados, e cada vez mais, entre unidades de produção. Há outro aspecto interferindo diretamente nas estruturas dos Estados Nacionais, que são os grupos em rede que questionam sua supremacia. Tal questionamento força os Estados Nacionais a se curvarem a ideologias extremistas, que não são as mais democráticas e inclusivas. São instrumentos de poder, que utilizam ideologias seculares e religiosas, para delimitar os espaços públicos e torná-los cada vez mais restritos. De certa forma, portanto, a crise dos Estados Nacionais diz respeito a um processo inegável: o da privatização dos espaços públicos e das políticas públicas, perante corporações e elites participantes do processo de ampliação do espaço econômico (ou seja, da globalização) e de células dos mais variados tipos de ideologia, onde algumas querem impor a sua verdade, minando o aspecto democrático a que se propunha, originalmente, o Estado Nacional, tal como fora pensado, por exemplo, na época da Revolução Francesa. *** Fica claro que uma situação dessas diz respeito a uma crise estrutural dos Estados Nacionais. Mas isso não significa uma decadência. Pois, mesmo influenciados de maneira deturpadora e privatizados, são os Estados Nacionais os responsáveis pelas armas mais pesadas que existem na face da Terra. E as decisões sobre guerras são tomadas pelos Estados, apesar do crescimento dos exércitos privados ao redor do globo. Estes podem realizar guerras de baixa intensidade, ou mesmo de alta, na periferia do sistema internacional. Além disso, as principais decisões na área econômica são sempre feitas pelos Estados. O comércio internacional, para todos os efeitos, depende da ação do Estado em sobretaxar produtos vindos de outros lugares, em conceder subsídios a determinadas áreas da economia (na Agricultura, por exemplo), de vetar ou não produtos, por conta de motivos técnicos (vamos supor, a soja dos EUA estaria contaminada, segundo boatos, e o governo japonês decide que não irá importar este produto; isso, mesmo que não exista provas a respeito de tal contaminação). Questões mais sérias como a autorização para uma guerra, a reconstrução de um país, etc., também cabe a um fórum de Estados Nacionais. Mesmo que eles não tenham a influência grande que possuíam no passado, eles não deixaram de ser imprescindíveis. Enfraquecidos, os Estados Nacionais passam por um período de redefinição de suas atribuições. Será possível que eles possam manter sua identidade ? Certamente, as línguas oficiais dos países, a cultura popular e outros aspectos são definições que, com o aval do Estado, ganham bastante em legitimidade. Por pior que esteja o ensino público, são as leis estatais que determinam a ele e ao ensino privado, também, a despeito do aumento do poder dos grandes empresários da área da educação. Há uma série de estruturas institucionais que servem de alicerce para o funcionamento dos Estados Nacionais. Sindicatos, Partidos Políticos, Associações de Defesa do Consumidor. Algumas delas vem tendo o seu papel dramaticamente modificado, ou até mesmo corroído. Diante da diminuição do número de postos de trabalho ao redor do mundo, os Sindicatos estão vivendo um momento dificílimo. Qual será a sua função, a partir do momento em que o próprio conceito de trabalho está sendo rearticulado ? Como captar essa nuance ? E de que maneira, a partir disso, os Sindicatos devem se posicionar ? Em tempos anteriores, eles estavam em uma atitude ofensiva exigindo plenos direitos aos trabalhadores, aumentos na remuneração, melhorias nas condições de trabalho, etc. Nos dias atuais, a atitude dos Sindicatos tem sido a defensiva. O máximo que conseguem fazer é evitar um maior número de demissões. E mesmo assim, a corrida da revolução tecnológica e a integração de áreas econômicas tornam qualquer defesa pelo pleno emprego cada vez mais difícil de ser realizada. De outro lado, os Partidos Políticos estão descobrindo que sua função ideológica está se deslocando. A função de Partidos Políticos próximos ao poder do Estado sempre foi a de impor sua variante ideológica perante a administração pública. No entanto, havia um equilíbrio de poderes ideológicos que davam uma margem de ação maior. Perante os extremismos estatista, do bloco soviético, e privatista do bloco ocidental, havia sempre a possibilidade fazer políticos em um meio-termos, onde iniciativa privada e uma economia de Estado poderiam ser combinadas das mais variadas maneiras. Com o fim do bloco soviético, restou apenas a referência do extremismo liberal-capitalista, que impõe o maior poder de seu núcleo central, os EUA. E assim, as referências para os Estados Nacionais têm sido as de diminuir, cada vez mais, o tamanho da estrutura estatal, sem que se coloque nada efetivo em seu lugar. Diante disso, os partidos políticos perderam sua referência ideológica. Diante do poder, resta a eles executar políticas impostas por uma conjuntura maior. As maiores fontes de poder dos dias atuais não parecem prezar por um Estado Nacional extenso e efetivo, mais sim por instituições com a máxima eficiência, mesmo que ser eficiente não signifique atender a todos os seus cidadãos de maneira equânime e justa. Dados esses aspectos, é necessário se fazer uma reflexão. De onde vem as forças que fazem com que o Estado Nacional entre em uma crise sem precedentes ? As sociedades em redeAnalisar uma Geopolítica Institucional significa investigar, antes de tudo, redes ideológicas, que prestam serviços à comunidade, que possuem uma política de comunicação social, que se apresentam com promessas nem sempre aplicáveis no concreto. Quer dizer, não estamos falando da análise de Estados defendidos dentro de suas fronteiras nacional, mas de algo que não está necessariamente territorializado. Falamos de estruturas que podem ser colaboradoras de um Establishment, mas que também podem se apresentar como formas de contra-cultura em relação ao Mainstream. E essas contra-culturas, como já verificamos, pode ser tanto reativa, quanto pró-ativa. Podem defender minorias étnicas, nacionais, mulheres, homossexuais, o meio-ambiente. E podem fazê-lo, tanto de maneira ponderada, quanto de forma radical e antidemocrática. Podem, da mesma maneira, defender propostas políticas ultranacionalistas, ultra-religiosas, racistas, etc. Além disso, podem ser redes, antes de ideológicas, econômicas. Que atuam derrubando e ajudando a derrubar fronteiras econômicas entre nações, vendendo seus produtos e serviços, e difundindo cartéis que podem se transformar em “governos corporativos”. Assim, um Chief Executive Office (CEO) de uma grande corporação pode ter um poder global, maior do que o de muitos chefes de Estado, a ponto de poder influenciar de maneira decisiva as tomadas de decisões e a elaboração não-mudança de leis, dentro dos Estados Nacionais, incluindo, nesse caso até mesmo os mais fortes e ricos países. *** Analisar a Geopolítica institucional, a partir de redes, pode não dar conta de todos os aspectos geopolíticos das instituições. Mas certamente diz respeito a uma forma muito importante de compreender a dinâmica das instituições dentro do mundo contemporâneo. No entanto, precisamos esclarecer que há casos onde existem instituições que não estão necessariamente atuando em redes. Que se prestam à prestação de serviços locais. Estão atuando, não no âmbito de uma ampla Geopolítica, mas sim dentro de espaços, como o bairro, a vizinhança, a pequena ou média cidade. Antes do período de crise dos Estados Nacionais, a maior parte das instituições estavam atuando apenas dentro das fronteiras dos seus respectivos países. Elas atuavam, de acordo com a política dos Estados Nacionais em expansão. E seu poder de interferência não tinha atingido níveis tão amplos como os atuais. A verdade é que, com a expansão do Capitalismo, as redes foram se ampliando. Em um determinado momento, elas atuavam apenas dentro de fronteiras nacionais. Com as grandes transformações nas áreas técnica, tecnológica, científica e política, as redes se difundiram em um espaço que vai além das fronteiras nacionais. E nesse caso, falamos das redes dentro de um sistema capitalista global. Redes corporativas, contraculturais pró-ativas e reativas, pacíficas ou violentas. Exércitos privados. Ou mesmo um misto de tudo isso. Grandes corporações, que difundem uma ideologia religiosa, por exemplo. Redes religiosas, que desenvolvem dentro de si um exército privado. Hackers fazendo ataques sobre grandes corporações – todo dia, novos vírus são criados para fins de destruir memórias de computadores, e algum Hacker, em algum local do mundo, consegue entrar nas redes de grandes corporações e até mesmo de governos nacionais. Organizações ambientalistas que utilizam ações de impacto para a grande mídia. E a própria grande mídia, atuando em escala mundial. Pensar em grandes redes, de acordo com um estudo geopolítico, é muito complicado. Analisar a Geopolítica, a partir de fronteiras nacionais parece algo mais simples de se fazer. De maneira que o estudo de uma Geopolítica Institucional é sempre específico. No entanto, é interessante combinar a análise de uma Geopolítica dos Estados Nacionais, que ainda são atores importantes do jogo político, analisando aspectos de uma Geopolítica Institucional. Podemos entender as conexões entre governos e organizações terroristas, exércitos privados, grupos guerrilheiros, think tanks, grandes corporações, etc. Mesmo assim, qualquer estudo nesse sentido não poderia ser tão completo assim. Ele precisa se restringir às redes certas, atuando dentro de determinada esfera da política internacional. E isso parece ainda ser um desafio a se enfrentar. De um modo geral, podemos analisar a forma como essas redes penetraram econômica e politicamente, pensando na questão do transplante de políticas econômicas e instituições políticas. Contudo, o aspecto técnico desse transplante será aqui pouco abordado. Apenas podemos falar da diminuição da noção de tempo e espaço promovido pela Revolução científico-tecnológica que propicia uma exploração mundial, que vai além de qualquer fronteira. E apesar disso, as fronteiras nacionais ainda são utilizadas. Para separar países ricos e de países pobres. Para impedir a imigração de grandes massas de populações fugidas das guerras e das más condições de vida em seus locais originais. Para exercer o poder eventual de um protecionismo econômico conveniente. Tudo isso, para observar, que as redes também se fazem entre os Estados Nacionais. Redes de aliança econômica (NAFTA, Espaço Econômico Europeu, Mercosul, etc.). Redes de aliança militar (ONU, ANZUS – Austrália, Nova Zelândia e EUA – e outras). Redes políticas institucionais (a União Européia). E redes globais de nações (tal como a Organização das Nações Unidas e suas respectivas instituições, tais como a UNESCO, a UNCTAD, a AIEA e outras). *** No final das contas, podemos observar as redes como formas de defesa em relação a um mundo cujo alcance está cada vez maior. Fusões entre grandes corporações, processo de terceirização, criação de blocos de Estados são as primeiras formas de defesa, diante do crescimento do espaço de interpelação social. Como ainda não existem instituições mundiais que possam ter um mínimo de funcionalidade, resta aos agentes institucionais se associarem das mais variadas formas, a ponto de criarem para si recursos para a interpelação social, de maneira a não serem dissolvidos, diante da cada vez mais brutal forma de competição em escala planetária. Isso vale para o comércio internacional e para a difusão das grandes corporações. Mas, diante do aumento do espaço político-econômico-social para uma escala planetária, há, da mesma forma, uma penetração de determinadas formas de hegemonia cultural e política. E com isso, também podemos falar de redes de defesa cultural. E de redes políticas alternativas. Sua posição, antes de ofensiva, passa a ser defensiva. Contra uma uniformização de aspectos culturais, a partir da afirmação da cultura local. Ou contra o aumento das desigualdades sociais, a partir da defesa da implementação de políticas redistributivas, mesmo que elas não sejam feitas necessariamente dentro do Estado, e sim a partir de ONG´s (algo que constitui um risco real, que expõe os Estados Nacionais, que deveriam ter a função social pública, por excelência; mas que, diante da atual conjuntura, pouco pode interferir). De fato, existiu um processo de uniformização de estruturas políticas e econômicas no mundo, e são essas que devemos analisar, para além de estruturas institucionais em rede, multifacetadas. Fábio Metzger (fabio@mhd.org) é sociólogo, jornalista, palestrante de assuntos internacionais, membro do MHD e Diretor Administrativo do IPSO
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