Globalização econômica e manipulação da informação

Audálio Dantas

Em janeiro de 2001, durante a realização do I Fórum Social Mundial (FSM) em Porto Alegre, Brasil, um pequeno grupo de jornalistas decidiu criar o que se denominou Ciranda Internacional de Informação Independente.

Como na ciranda, uma dança muito popular do Nordeste brasileiro, que às vezes reúne dezenas, centenas de pessoas numa grande roda, os jornalistas vindos dos mais distantes pontos do mundo deram-se as mãos e iniciaram um movimento que, mesmo sendo frágil diante do formidável poderio dos grandes conglomerados da mídia dominante, poderá tornar-se uma importante alternativa à manipulação da informação, hoje em grande parte voltada para a defesa dos interesses do grupo de países que, tendo à frente os Estados Unidos, comanda a globalização da economia.

Organizado em contraposição ao Fórum Econômico Mundial, que reuniu em Davos, nos últimos anos, os representantes da ordem econômica mundial dominante, a Ciranda partiu do princípio de que a atual concentração capitalista exige uma resposta dos movimentos sociais em todo o mundo, os quais devem adotar, da mesma forma que as instituições postas a serviço da globalização econômica, uma estratégia global.

No caso da comunicação social, trata-se da apropriação, pelos movimentos sociais, dos instrumentos propiciados pela revolução tecnológica, das conquistas que deram lugar à chamada “sociedade da informação”, dentro do que se convencionou denominar de “era global”.

Trata-se de difundir, mesmo que em escala infinitamente menor, as idéias de um movimento de convergência mundial de entidades representativas da sociedade civil, que ganham corpo em todo o mundo, e colocam em questão a globalização econômica. É uma contraposição às instituições postas a serviço da integração do capital internacional, tais como a OMC – Organização Mundial do Comércio, Banco Mundial, FMI – Fundo Monetário Internacional e OCDE – Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico.

A Ciranda Internacional de Informação Independente teve na Internet o principal instrumento para enfrentar o monopólio da informação durante a realização do FSM. A idéia de sua formação partiu do princípio de que as sociedades democráticas exigem da mídia informações verdadeiras e suficientes para torná-las capazes de formar uma visão crítica da sociedade e de seus conflitos.

A primeira grande tarefa da Ciranda foi noticiar o acontecimento do Fórum Social Mundial, que em sua primeira edição contou com a participação de 600 jornalistas da imprensa independente mundial, ligados a agências de notícias, jornais, rádios, TVs, grupos de Internet como a Inter Press Service (IPS), da Itália, e a Associação pelo Progresso da Comunicação, de São Francisco, Estados Unidos, veículos de divulgação de sindicatos e outras entidades da sociedade civil de várias partes do mundo.

Cem desses profissionais integraram-se à Ciranda, utilizando o site na internet que havia sido criado especialmente para a comunicação dos organizadores do FSM com o mundo. O problema da cobertura de um evento da grandiosidade do FSM foi resolvido com a criação de um pool de veículos de comunicação independentes que utilizaram os serviços dos jornalistas que participaram da grande roda da informação livre.

A roda se ampliou. Em janeiro deste ano, dois mil jornalistas fizeram a cobertura da segunda edição do Fórum. Metade deles entrou na corrente de informação. O site oficial do encontro recebeu cerca de 50 mil visitas diárias, somando 300 mil acessos no encerramento dos trabalhos. A expectativa é que a teia de informação independente vá além da divulgação dos debates do FSM, ligando-se a outros movimentos alternativos de informação em todo o mundo.

Por menores que sejam os efeitos da atuação da comunicação alternativa na opinião pública mundial, ela constitui uma importante resposta à idéia que se avoluma no seio da Organização Mundial do Comércio, segundo a qual a informação é uma mercadoria como outra qualquer e, como tal, sujeita unicamente às leis do mercado.

O mundo no qual se dão as mãos os cirandeiros da informação independente está submetido a um sistema econômico que se expande desenfreadamente, livre de qualquer controle.

A partir da crise que atinge os países capitalistas desenvolvidos, em meados dos anos 1970, as idéias do novo liberalismo, apregoadas desde os primeiros anos após a Segunda Guerra Mundial por um grupo de ilustres economistas, entre os quais Milton Friedman e Friedrich von Hayek, ganham corpo. É preciso quebrar a força dos sindicatos, estabelecer a disciplina orçamentária, promover reformas fiscais, a estabilidade monetária, as desregulamentações e todo um conjunto conhecido de medidas que beneficiam o capital em detrimento dos direitos sociais e, muitas vezes, políticos.

Como uma onda avassaladora, o neoliberalismo é posto em prática, primeiro, nos países da Europa Ocidental nos quais se estabelecera, no pós-guerra, a política do Estado de Bem-estar Social, o Welfare State, para depois avançar mundo afora, conduzindo a bandeira da supremacia do mercado.

Estabelecem-se, paradoxalmente, o “Estado Mínimo” e ao mesmo tempo forte. O primeiro deve se conter ao investir em programas sociais enquanto deixa passar, livre de qualquer obstáculo, o grande bloco do mercado, e o segundo deve ser capaz de reprimir os movimentos sociais, principalmente o sindical, que os ideólogos do neoliberalismo apontam como causadores da crise do capitalismo.

Os sindicatos, dizem, corróem as bases da acumulação privada, na medida em que reivindicam melhores salários e pressionam pelo aumento de despesas sociais , consideradas “parasitárias”.

O “Estado Mínimo”, porém forte para reprimir os movimentos sociais, encontra a sua perfeita execução em Margareth Thatcher, na Inglaterra, no final da década de 1970, com os resultados conhecidos.

A década de 1980, a partir da eleição de Ronald Reagan para a presidência dos Estados Unidos, marca o triunfo da ideologia neoliberal, coroada logo depois com o desmoronamento do império soviético.

O mundo que resultou da escalada neoliberal vive hoje, perigosamente, sucessivas crises causadas pelo aprofundamento da exclusão social. A mentira muitas vezes repetida de que a liberdade dos mercados seria o caminho para a solução dos problemas sociais já não consegue esconder o quadro ampliado da miséria em que vive grande parcela da humanidade.

A mundialização da economia avançou sobre uma vala comum em que foram jogados centenas de milhões de seres humanos. Os números sobre o aprofundamento da desigualdade social, nos últimos vinte anos, são conhecidos, mas é importante que sejam repetidos. Eles resultam de um sistema econômico gerador da desigualdade e da injustiça que atinge, principalmente, os países do Terceiro Mundo. O relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) de 1997 registra: “Dos quinze aos vinte últimos anos, mais de cem países do Terceiro Mundo ou do antigo bloco socialista sofreram um desmoronamento do crescimento e quedas no nível de vida, mais significativas e duráveis do que tudo aquilo que os países industrializados puderam conhecer quando da grande crise dos anos 30”.

James Speth, administrador do PNUD, lembrava, em 1996, que “em mais de uma centena de países a renda por habitante é atualmente mais baixa do que era há 15 anos”. Essa situação levou mais de 1,6 bilhão de pessoas a uma condição de vida pior do que a que tinham no início da década de 1980.

Enquanto isso, a participação das 200 maiores empresas transnacionais no Produto Mundial Bruto (PMB) passou de 24% em 1982 para 35% atualmente. Os números da desigualdade crescem sem cessar. Os relatórios da ONU e os que são produzidos nos encontros internacionais dos países que sustentam a atual ordem econômica fazem menção à escalada da pobreza como se tratassem de um castigo divino e, portanto, sem remédio. O relatório de 1996 do PNUD registra que “mais de 800 milhões de seres humanos passam fome e em torno de 500 milhões de indivíduos sofrem de subnutrição crônica”. Seis anos depois, na Conferência Internacional sobre o Financiamento ao Desenvolvimento, realizada no final de março deste ano de 2002, em Monterrey, México, os números são maiores, mas nem por isso causam mais espanto. Por exemplo, 2,4 bilhões de pessoas não dispõem de saneamento básico. Isso significa algo em torno de 40% da população mundial.

A globalização da exclusão social ocorre simultaneamente com os grandes avanços das tecnologias eletrônicas e informáticas, geradoras da sociedade da informação. No seio da Organização Mundial do Comércio desenvolveram-se ações no sentido de fazer prevalecer a idéia de que todos os fluxos de comunicação devem ser submetidos às leis do comércio internacional.

Assim, considerada uma mercadoria como outra qualquer, a informação adquire outros valores que não aqueles como a verdade, a ética, o direito dos cidadãos de serem corretamente informados.

Na ótica do mercado, erigido em valor maior, liberdade é outra coisa. Como na economia mundializada, a liberdade de comunicação não deve reconhecer fronteiras, soberania das nações, regulações acordadas em instituições internacionais, a começar pela ONU. Segundo a visão do mercado, o espectro eletromagnético não deve ser considerado um “bem comum”, e portanto, controlado pelo poder público, mas propriedade privada. A regulação de seu uso é tarefa do próprio mercado, ou seja, a auto-regulação.

Prevalece a livre-oferta, e assim, qualquer intervenção do Estado é considerada como “censura”. O papel do Estado como coordenador dos sistemas de informação e de comunicação, no interesse da liberdade de informação cidadã, deixa de existir.

É o “Estado Mínimo”, enfim, deixando por conta da indústria da comunicação a circulação da informação. Há, evidentemente, uma reação da sociedade civil, em várias partes do mundo, contra essa escalada. A questão do acesso universal ao ciberespaço será discutida no próximo ano, em Genève, na I Conferência Mundial da Sociedade da Informação, patrocinada pela ONU. A discussão será centrada na idéia da apropriação democrática das técnicas interativas, consideradas um “bem público global”, em oposição à visão mercantil que tem na OMC o seu instrumento de defesa.

A bandeira do livre-comércio na área de comunicação, sustentada pela OMC e pelos países que dão as cartas no sistema de globalização da economia, é a da liberdade individual, que deve prevalecer sobre o controle do Estado ou mesmo sobre os mecanismos adotados por instituições multilaterais. Não se fala da questão da exclusão digital, ou seja, a exclusão da maioria da tão decantada sociedade da informação. Ignácio Ramonet registra em seu livro “La tyrannie de la communication” que “a suposta liberdade que as novas tecnologias de informação proporciona não diz respeito a todo o mundo. Há, por exemplo, menos linhas telefônicas na África negra do que só na cidade de Tóquio”. Ele acrescenta que o número de computadores pessoais em todo o mundo é pouco superior a 200 milhões, para uma população de 6 bilhões de pessoas, o que significa que apenas 4% dos lares do planeta têm acesso à Internet.

É conhecida, nos países periféricos, a importância do papel representado pela mídia, ou grande parte dela, para o sucesso da receita neoliberal. A população desses países terminou aceitando, por exemplo, a idéia de que o Estado deve ficar de fora de quase tudo e dar lugar ao mercado, porque esta idéia foi sempre “bem embalada” pela mídia.

Na verdade, os meios de comunicação, em grande parte oligopolizados, estão na outra ciranda, a da economia globalizada. A concentração dos meios, principalmente a televisão, constitui, hoje, uma ameaça à democracia . Os grandes grupos da mídia são os principais arautos do pensamento único, da idéia de prevalência do mercado.

O fenômeno da concentração ocorre com mais intensidade, naturalmente, nos Estados Unidos, carro-chefe do sistema de dominação mundial. Ali se formam o que se pode considerar impérios dentro do império. Gigantes da indústria da comunicação engalfinham-se numa verdadeira guerra. Fazem-se fusões em que empresas são engolidas, absorvidas por outras mais poderosas. Esses gigantes que controlam a multimídia expandem-se cada vez mais. Nos Estados Unidos, eles estão empenhados em acabar com as normas que ainda restringem a propriedade dos meios e que impedem a hegemonia dos monopólios.

Na Europa, que divide com os Estados Unidos 80% do mercado da mídia mundial (cada uma com 40%, ficando os restantes 20% no conjunto dos outros países), há leis que buscam impor limites aos monopólios. Tais leis restringem a propriedade dos meios, como forma de se garantir a pluralidade da informação. Evidentemente, isso não impede que, mesmo sem a concentração que se observa nos Estados Unidos, a verdade da informação prevaleça no continente europeu. Na Inglaterra de Thatcher, o magnata australiano Rupert Murdoch controla um terço da tiragem dos jornais, além de ter forte participação em redes de televisão a cabo. Em outros países, naturalmente, grandes grupos são plenamente identificados com os mandamentos da economia globalizada.

Diante da marcha batida da globalização, há quem preveja, como é o caso do respeitado jornalista polonês Ryszard Kapuscinski, que “caminhamos para uma situação em que um único grupo econômico controlará o conjunto da informação e decidirá sobre o que os 6 bilhões de indivíduos do nosso planeta deverão ver e de que maneira”.

A manipulação da informação, porém, é um fato presente, cada vez com maior intensidade. A televisão, que é a mídia dominante, fornece informação em doses cavalares, muitas vezes em tempo real. Há tanta informação a ser consumida, que não se chega a perceber que algumas delas, muitas vezes essenciais, não foram dadas.

Durante a guerra do Golfo, em 1991, o mundo inteiro foi submetido a uma overdose de informação, que era, ao mesmo tempo, desinformação. A guerra exibida em tempo real não era a guerra real, em toda a extensão da tragédia humana ofuscada pelo brilho sinistro dos mísseis que cruzavam os céus do Iraque. As imagens transmitidas, ao vivo – registra Ramonet – levavam o mundo a acreditar que estava vendo a guerra, sem perceber que “aquelas imagens mascaravam silêncios”.

O que se mostrava, na realidade, era uma guerra asséptica, de bombardeios à distância, de intervenções ditas cirúrgicas, enfim, uma “guerra limpa”, sem as cenas de destruição e dor causadas pelas bombas. Uma guerra assim não desperta sentimentos como o da solidariedade às vítimas nem o do horror das carnificinas. Além de tudo e acima de tudo pairava o discurso da guerra em nome do bem, da guerra contra o mal.

As notícias daquela guerra, deflagrada sob o poder de outro Bush, enfatizavam a novidade das “intervenções cirúrgicas”, capazes de resolver tudo em poucas horas.

Não entravam no noticiário massificado informações sobre as verdadeiras razões da guerra – o controle sobre uma das regiões produtoras de petróleo mais importantes do mundo.

A globalização econômica produziu outra – a da guerra. A guerra globalizada que é uma conseqüência da exacerbação do poder hegemônico dos Estados Unidos, da arrogância que leva às intervenções militares. A intervenção no Iraque, em 1991, mostrou ao mundo o que significa o poder hegemônico a grande mídia, com raras exceções, embarcou nos mísseis que desabaram sobre o país, a despeito do que decidira o Conselho de Segurança da ONU, que autorizavam desocupação do Kwait e não uma chuva de bomba sobre Bagdá. As razões econômicas que levaram ao ataque foram ocultadas, cuidadosamente camufladas pela imprensa ocidental, antes e durante a guerra, deflagrada sobre justificativas humanitárias e democratas.

Uma enorme operação de camuflagem da informação foi montada. Nunca se vira antes uma campanha tão intensa de justificação da violência como naquela guerra dita asséptica.

Estamos, hoje, diante de novo pretexto para novas guerras. Adotam-se novos conceitos para justificar a violência da dominação mundial. Fala-se em “Guerra justa contra Estado considerados “malignos” ou “marginais”. Trata-se de defender ou “mundo civilizado contra a ameaças de facções religiosas que recorrem ao terrorismo.

A mídia dominante ecoa o discurso da necessidade do combate ao terrorismo, o que autoriza a caça aos terroristas onde eles se encontrem ou supostamente se encontrem. O horror do 11 de setembro tudo justifica.

Mais do que nunca, justifica-se “a guerra do bem contra o mal”. Não apenas contra grupo terrorista, mas contra Estados que os apoiariam e por isso são considerados “marginais”. Três deles – o Iraque, a Coréia e o Irã – formam o que se chama de “Eixo do Mal”.

Audálio Dantas é Jornalista, escritor, presidente da Fundação Ulysses Guimarães – São Paulo; diretor da União Brasileira de Escritores (UBE). Foi deputado federal pelo Estado de São Paulo, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, presidente da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, e presidente do Conselho da Fundação Cásper Líbero (SP), mantenedora da TV Gazeta e da Faculdade de Comunicação Cásper Líbero.


SUBIR PARA O TOPO DA PÁGINA VOLTAR AO ÍNDICE DE ARTIGOS